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domingo, 20 de março de 2011

UMA TRADIÇÃO NORDESTINA QUE SE RENOVA

"Eu prantei (plantei) meu "mio" (milho) todo no dia de São José...
Se me ajuda a "providênça" (Providência)
vamo (vamos) ter mio a "grané" (granel)...
Vou "coiê" (colher), pelos meus "caico" (cálculos),
vinte espiga em cada pé"...

A canção gostosa ecoa, pelos tempos afora, na poderosa voz de Luiz Gonzaga. E ela guarda uma tradição valiosa, na crença do nordestino no poder de São Jósé em ajudá-lo a ter uma safra de milho boa, a cada ano.

Não há mistério nessa ligação do "dia de São José", 19 de março, com o tempo de "São João", 24 de junho, porque esse é o tempo necessário - medido em semanas, entre essas duas datas do calendário religioso - para que o milho - plantado em meados de março - esteja pronto para ser colhido em junho. O povo é que, sabiamente, "inventou" o seu calendário particular, ligado às celebrações religiosas da Igreja Católica. É o saber popular justificando a ciência à sua maneira!

Ontem, dia 19, foi o DIA DE SÃO JOSÉ. Homenagens foram prestadas àquele que a igreja venera como o pai adotivo de Jesus, a quem foi dada a missão de zelar pelo Filho de Deus e por sua Mãe, Maria, criando-O desde o nascimento. E, entre as muitas festas feitas para ele, que é o Patrono da Igreja, está a dos agricultores nordestinos, prontos para ao plantio, crendo naquilo que aprenderam de seus pais, avós e que repassarão para as gerações futuras.

Mais uma vez prevaleceu a sabedoria que vem do povo, que se consolida entre os mais simples, que se perpetua como herança, na riqueza da sua tradição. O mesmo povo que batiza seus filhos com o nome JOSÉ, também considerando herança, ter esse nome abençoado entre os seus. E é esse povo que considera "obrigação" chamar de Maria José / José Maria, a toda criança que nascer "laçada" (envolvida no cordão umbelical), como uma tentativa de evitar que esse menino/menina venha a "morrer queimado ou afogado".

E isso me faz lembrar uma outra deliciosa canção, do paraibano, mestre do repente, Jackon do Pandeiro, que diz: "Vixe, como tem Zé. Zé de Baixo, Zé de Riba. Desconjuro assim com tanto Zé... Mas como tem Zé lá na Paraíba!

Coisas saborosas que retratam a cultura popular deste Nordeste sofrido e sábio, que vale a pena recordar"

domingo, 27 de fevereiro de 2011

EM PERNAMBUCO, FAZ TEMPO QUE JÁ É CARNAVAL!


Oficialmente, o Carnaval dura três dias. Começa no domingo, prolonga-se pela segunda e pela terça-feira e deveria terminar ao findar-se esse "último dia", porque a quarta-feira de cinzas chega e com ela o tempo da Quaresma se inicia. Isso é o que dizem os calendários e todas as previsões a respeito do período momesco...

Mas, em Pernambuco, isso é assim??? Que nada! Nem bem terminam as festas de Ano Novo e os clarins anunciam um Carnaval que vem chegando, muito mais cedo do que se esperaria e com toda a força da participação popular, especialmente no Recife e em Olinda.

Os blocos "acertam" suas marchas e afinam seus instrumentos de pau e corda. Os maracatus, suas alfaias. seus gonguês, seus taróis, suas caixa-de-guerra, seus xequerês. Os caboclinhos, suas preacas. Os clubes, seus instrumentos de sopro e percussão. Os bonecos gigantes, seus passos, pelo andar dos seus carregadores. E outros, outros, outros, também... Assim se antecipa o Carnaval, enquanto se prepara e espera a grande festa!

Experimente caminhar pelo Recife antigo, nesse tempo de antecipação. De cada canto vem vindo um grupo, uma troça, um clube... Os sons se misturam. O colorido das roupas das fantasias empolgam. A decoração oficial - ainda incompleta - cria a expectativa exitante que promete. E vá se entregando a essa folia que surge, aquecendo-se para os dias oficiais de Momo.

Ou tente enfrentar ladeiras e ruas de Olinda, nesses meses anteriores ao Carnaval... Prepare as pernas, apure seu fôlego e suba/desça, sempre atrás de uma infinidade de agremiações, oficiais ou "oficiosas", irreverentes ou solenes, "ensaiando" para o tempo que vem chegando. Agarre-se firme na mão de quem está mais perto, sendo você também parte desses "cordões humanos" que protegem os instrumentos e os instrumentistas, as fantasias tão bem cuidadas ou improvisadas, os que brincam e os que apenas olham, apertam-se, espremem-se, naquele mar de gente de todos os cantos. Por todo lado, peças enormes, de extrema beleza vão concretizando e distribuindo sonhos, compondo a sempre aguardada decoração dos sitios históricos dessa terra, carnavalesca na sua "alma".

Por muitos outros lugares desse Estado multiplicador de folia o clima é o mesmo: alegria, entrega, participação, cumplicidade, partilha, vontade de ser feliz!

Ave, Pernambuco, por tudo o que cria e pela força com que teus brincantes correspondem ao que se espera de ti! Ave, Pernambuco de múltiplos carnavais! Já e já ele chega pra valer, enfim!



sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A IGREJA E O CARNAVAL DE OLINDA ESTÃO DE LUTO


Certas perdas são irreparáveis... Sobretudo, quando aqueles que se vão não deixam seguidores, quando o saber fica nos frutos que "nasceram", daquelas mãos, daquela alma, daquele dom.

Esse é o sentimento que predomina no coração de muitos, ao prantearem MARIA DO MONTE MARQUES BURITY, a talentosa e singela bordadeira de Olinda, que fez do seu ofício um exercício de beleza, criando as mais belas peças litúrgicas, os mais característicos estandartes de Carmaval, os mais rebuscados mantos para imagens de procissão...

Foram inúmeros clubes, troças e blocos, de Olinda, do Recife, de Vitória de Santo Antão e de outras localidades que se entregaram à folia momesca precedido do seu marcante estandarte ricamente bordado por ela... Foram muitas as irmandades, congregações religiosas que quiseram-na ter como autora dos suntuosos mantos dos seus padroeiros, das imagens significativas que guardariam no interior das suas igrejas ou nos andores percorrendo as ruas, nas festas marcantes.

MARIA DO MONTE foi considerada "um patrimônio vivo de Olinda", ao tempo do Prefeito Germano Coelho, ao lado de outros ícones olindenses, como o Mestre Salustiano, o artífice Julião das Máscaras, o compositor Alex Caldas (autor do Hino de Pitombeira) e outros diversificados artistas, importantíssimos para a Cidade Monumento Nacional e Patrimônio Cultural da Humanidade... E foi a homenageada do Carnaval da cidade em 1990.

MARIA DO MONTE usou suas mãos abençoadas para trançar delicados fios de ouro e de prata, dando forma à beleza sobre tecido. E fez desse ofício uma missão, dedicando-se ao ensino profissional e às especiais encomendas dessas peças durante toda a vida...

MARIA DO MONTE viveu o franciscanismo como leiga consagrada, da Ordem Terceira de Olinda, espalhando a PAZ e o BEM como queria o "pobrezinho de Assis"...

MARIA DO MONTE vai deixar saudade. Ah! Como vai!

E nós todos, que vivemos o privilegio de conviver com ela, vamos "senti-la" pairando pelas ruas e pelos templos, cada vez que uma manifestação religiosa católica ou um clarim carnavalesco trouxerem o eco dos tempos em que era dela a manifestação primeira de cada momento cultural e religioso.

Tomara que o processo de reconhecê-la como PATRIMÔNIO VIVO DE PERNAMBUCO não pare, não se interrompa e sim ganhe mais força, diginificando-a com o título in memoriam, por merecimento e por reconhecimento de todos, sobretudo do Governador de Pernambuco!

Ela merece isso! Pernambuco, também!


sábado, 5 de junho de 2010

FALANDO DE CIGANOS EM FERNANDO DE NORONHA

O Jornal do Commercio publicou, no dia 26/05/2010, o Caderno Especial "NO RASTRO DOS CIGANOS", resultado de uma interessante pesquisa sobre esse povo nômade, tão perseguido através dos tempos e que conserva tradições milenares, numa evidente transmissão, de pais para filhos, de uma Cultura fascinante e incompreendida por muitos. De parabéns estão as jornalistas Verônica Falcão e Cleide Alves, pela riqueza nos dados abordados e a fotógrafa Hélia Scheppa, pelas imagens reveladoras!

A lamentar apenas, que tenha ficado fora dessa retrospectiva, a histórica presença dos ciganos do Brasil em Fernando de Noronha, a partir de 1739, assinalada por diversos historiadores, embora as comprovações desse envio sejam quase inexistentes. O que se sabe é que cronistas mencionaram o fato, como Pereira da Costa, sem explicitar detalhes e outros tantos também o repetiram, acreditando-se que a deportação dos ciganos para a Ilha, naquele momento, seria uma tentativa preconceituosa de "limpar-se a raça" , isolando-se esses homens e mulheres por suas atitudes consideradas clandestinas e marginais.

No imaginário popular, esse momento histórico talvez tenha sido a razão do surgimento da lenda "O cajueiro da cigana", mencionada poor vários historiadores e poetizada no final do século XIX pelo poeta paraense, ex-seminarista, revolucionário e ardente apologista do protestantismo, Gustavo Adolpho Cardoso Pinto, que foi cumprir pena em Fernando de Noronha, aos 19 anos de idade, por assassinato e roubo e, lá estando, criou un lindo poema (entre tantos) com essa lenda, publicado num livro de versos seus intitulado "Risos e Lágrimas".

Suas rimas têm sabor agreste e resgatam essa e outras velhas histórias, perpetuadas pela oralidade e criam uma aura de verdade naquilo que tanto incomodou os estudiosos do tema "Noronha", em todos os tempos. Os versos são mencionados por Gaston Penalva, Pereira da Costa, Mario Melo e Beatriz Imbiriba, todos autores de obras sobre a Ilha.

Diz ele:"Conservaram as tradições/ Que esbelta e linda Cigana/ Tinha, aqui, pobre cabana/ Nestas ermas solidões;/ Certo a buena dicha lia/ Porem disto não vivia. Mas certos amores vendeu.../ Era bela o mais quem sabe?/ Dizer a mim não me cabe,/ Depois dizem que morreu,/ E por memória deixou/ Esta árvore que plantou/ Desde então, nesta paragem/ Junto deste cajueiro,/ Aparece ao caminheiro/ Um eqüestre personagem;/ Fronte altiva e marcial,/ Vestido de general./ Quantas vezes, diz a gente/ Que um vulto - rara beleza,/ Pelas formas - com certeza,/ Mulher - alma padecente,/ Se vê perdida na estrfada,/ Como quem vai de jornada./ Não se sabe o que julgar/ Dessa estranha aparição..."

O poema segue, contando as agruras daquela vida degredada, no dizer de um poeta sem liberdade, que fez das histórais do lugar onde vivia o "mote" daquilo que escrevia. E essa é uma informação preciosa, quando se está resgatando o saber e as vivências do povo cigano.

Também a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, em 1995, ao levar Fernando de Noronha para a Sapucaý, fez de "O Cajueireo da Cigana" um belo carro alegórico, carnavalizando a lenda, seguido de todo uma ala de ciganos, homens e mulheres, que mostravam ao mundo - naquele momento - a histórica presença cigana na Ilha, informação que muitos poucos sabiam (e não sabem, até hoje). Pena que o Caderno Especial de agora deixou de fora dados tão curiosos...

Mas isso vem a calhar, no momento em que o Ministério da Cultura - MinC, por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural (SID), instituiu o Prêmio Culturas Ciganas 2010, que teve suas inscrições abertas no dia 16 de abril e que serão encerradas no dia 12 de julho próximo. A competição quer premiar 30 iniciativas que envolvam trabalhos individuais ou coletivos, que fortaleçam as expressões culturais ciganas e contribuam para a continuidade e a manutenção das identidades dos diferentes clãs e povos presentes no Brasil, que somam mais de meio milhões de pessoas.

Bela iniciativa federal! Tão oportuna quanto essa, do Jornal do Commercio, de fazer a publicação desse admirável "NO RASTRO DOS CIGANOS", com que fomos todos nós - os leitores - premiados nesse final de maio, mesmo que a saga noronhense tenha ficado de fora.
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Ilustração: protótipo de um dos carros alegóricos da Mangueira, em 1995, criação do carnavalesco Ilvamar Magalhães.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

PASTORIL - UMA TRADIÇÃO VALIOSA!


No nordeste do Brasil há um folguedo tradicional do tempo do Natal que encanta a todos que o assistem ou a ele estão ligados. É o PASTORIL, singela manifestação originária do chamado “teatro religioso popular”, comum na Espanha e em Portugal, que recria a louvação feita pelos pastores na noite em que Jesus nasceu, fazendo isso em canções de anônima criação, em contendas entre figuras de destaque de cada pastoril, de danças, de escolha e coroação de “rainhas”, defensoras das cores AZUL ou ENCARNADO, como tema de peleja.

Para a maioria dos estudiosos da cultura popular esse folguedo característico do período natalino tem séculos de tradição e é representado desde a preparação do Natal, até as festas de Reis, com alegorias, bailados e canções, todas louvando o Menino Jesus que chega e que atrai os pastores na noite que se adianta, como um teatro popular, de cadência rítmica muito semelhante a canções portuguesas,

Dos Pastoris religiosos, feitos nas igrejas, próximos ao Presépio armado em lugar de destaque, o costume ganhou as ruas, “profanizou-se”, co-existindo, nos dias atuais, um pastoril de gosto popular mais fiel à veneração do Filho de Deus nascido, e um outro, de caráter profano, galhofeiro e irreverente, com canções nada convincentes do ponto de vista religiosos. E existem seguidores para todas essas tendências.

Mesmo nos pastoris religiosos, percebe-se que, ainda que de gosto popular, alguns grupos pareceram sempre mais burgueses, com trajes luxuosos, cantando diante de Presépios (ou “Lapinhas”, como são chamados) e que são a representação estática do nascimento do Menino Jesus. Outros vestem-se até de papel crepon, na pobreza da sua roupa humilde...

Na sua composição, o PASTORIL tem, principalmente, PASTORINHAS, vestidas de AZUL ou de ENCARNADO (a cor “vermelha”), destacando-se no cortejo três dessas figuras:

  • a MESTRA, principal figura do "cordão" ENCARNADO;
  • a CONTRA-MESTRA, principal figura do "cordão" AZUL
  • e a DIANA, elemento agragador, dançando isolada entre os dois "cordões", vestida nas duas cores do Pastoril: o ENCARNADO e o AZUL.

Afora essas personagens principais, muitas outras assumem papéis especiais, como a CIGANA, o ANJO, a CAMPONESA, o PASTOR... Em tudo há a singeleza do fervor religioso e o anonimato ds "Jornadas", que são as canções feitas só e para aquele momento de louvor.

O encantamento do PASTORIL atravessou gerações e chegou aos nossos dias, eternizado nos muitos dedicados guardadores dessa tradição, na fidelidade de escolas que continuaram a repetir toda esse costume natalino, nos grupos que foram se formando por aí afora e, mais recentemente, na feitura de um CD - "Pastoril" - pela pesquisadora e musicisita Dinara Pessoa, registrando 20 diferentes jornadas, imortalizando as poesias repetidas por adultos e crianças, CD este merecedor do "Prêmio Rodrigo de Melo Franco", a nível f ederal, pelo inusitado que representa, no universo da cultura popular.

Seria muito bom que tudo isso se perpetuasse... E que nós pudéssemos ouvir, pela vida afora, as doces e inesquecíveis jornadas de pastoril... Ah! como seria bom!

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

PERNAMBUCO FEZ BONITO...


Numa festa bonita e marcada pela emoção aconteceu a entrega da “ORDEM DO MÉRITO CULTURAL 2009”, a 50 personalidades que se destacaram em diversos campos da cultura, tanto no Brasil (a maioria) como em países de língua portuguesa, neste 25 de novembro passado.

A festa foi no Rio de Janeiro. Comitivas se deslocaram dos muitos recantos do Brasil e do mundo para viverem o inesquecível momento de serem agraciados, diante de uma platéia vibrante e diversificada e contando com as honrosas presenças do Presidente da República, dos Ministros da Cultura e dos Direitos Humanos e do Prefeito do Rio.

Pernambuco fez bonito... Diversos segmentos da cultura pernambucana mereceram destaque e fizeram por merecer a inclusão na seleta lista dos contemplados com essa honraria.

No palco e na platéia estavam representantes do BALÉ POPULAR DE PERNAMBUCO, do MAMULENGO SO-RISO (de Olinda), do MARACATU ESTRELA DE OURO (de Aliança), do MESTRE VITALINO (de Caruaru, in memoria) e dos artistas plástico PAULO BRUSKE e GILVAN SAMICO.

Nas imagens projetadas, cenas de cada um desses agraciados, mostrando o trabalho que fazem e que os tornou merecedores da homenagem. No palco, a arte e agilidade dos passistas do Balé Popular. No coração dos tantos pernambucanos ali presentes, o orgulho de saberem-se conterrâneos de tanta gente talentosa e criadora da beleza.

CULTURA é isso: a diversidade na criação, as muitas formas de expressar-se, a eternização no saber construído, a beleza na herança que fica para a posteridade. Pernambuco é CULTURA! Pernambuco é MÉRITO CULTURAL!

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

UMA DAS LENDAS DE FERNANDO DE NORONHA

A LENDA DO CAPITÃO KIDD

(história do pirata que andou pelos mares e escondeu seus tesouros numa ilha)

Contam que, pelos mares,
Um homem famoso andou
Assaltando embarcações,
Provocando confusões
Como nunca se pensou...
Salteador de verdade
Que a muitos assustou.

Contam também que o homem
Depois de perambular
Pelos lugares do mundo
E pelo mar mais profundo,
Resolveu se resguardar
Escondendo seus tesouros
Todos num só lugar.

Numa caverna enorme
De uma bonita ilha
Foi o tesouro escondido,
Quase desaparecido
Ficando guardado em pilha...
Para que o povo esquecesse
Do pirata e sua quadrilha...

Capitão Kidd era o nome
Desse temido ladrão.
Histórias foram inventando
Desse cabra, revelando
Os roubos, a traição,
De tanta gente atacada
Sem dó e sem compaixão.

Até hoje se acredita
Que, da ilha, o “mar-de-fora”,
Esconde essa riqueza
Na caverna, com certeza,
Sepultando, desde outrora,
Jóias, moedas de então
Tudo que até servia agora...

Mas quem vem pra essas bandas
Saiba que vai encontrar
Um tesouro de beleza
Que está na natureza
Como atração do lugar
Sem que venha a ser preciso
Outra riqueza buscar.

As coisas que hoje se contam
Do homem que assim viveu,
Dos roubos desse danado,
Pirata mal-assombrado
Que o tempo não esqueceu,
Tudo isso virou lenda...
Será que aconteceu???
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Ilustração: reprodução do protótipo do carro alegórico da Escola de Samba Mangueira, no Carnaval de 1995, desenho do carnavalesco Ilvamar Magalhães

Texto: Marieta Borges Lins e Silva


quinta-feira, 9 de julho de 2009

A PADROEIRA DO RECIFE



Foi em 1909 que tudo aconteceu... O Recife tinha sido dedicado a Santo Antônio desde muito tempo. O primeiro monumento de uma das ilhas do centro da cidade fora o Convento de Santo Antônio, dos Franciscanos.

O povo da cidade, naquele começo de século, precisava talvez de uma “Mãe”, que ouvisse suas preces e derramasse graças sobre todos... Os carmelitas já estavam instalados ali desde 1663, vindos de Olinda, a Casa-Mãe da Ordem... Os devotos de Nossa Senhora do Carmo queriam muito tê-la como Padroeira, ao lado de Santo Antônio... Os pedidos foram muitos. A ansiedade também. Até que, naquele 1909, o Papa Pio X, atendendo àquele anseio tão forte a fervoroso, autorizou que a Virgem do Carmelo fosse padroeira do Recife em conjunto com Santo Antônio.

Dez anos mais tarde, em 1919, a Virgem foi coroada e proclamada oficialmente a padroeira da cidade. Foi o povo pernambucano que doou a esplendorosa coroa com que tudo se consumou... Com o passar dos tempos, sua devoção superou a do primeiro padroeiro, sendo hoje essa antiga honraria quase que completamente esquecida.
E a cada ano, o ritual carmelitano é repetido. Novena de 06 a 14 de julho; vésperas solenes dia 15 de julho: e, no dia 16, o Recife se veste de amarelo e branco, crendo serem essas as cores que simbolizam a Virgem do Carmo, acompanham as Missas, desde a madrugada e a Procissão, proclamando sua fé na Mãe sem respeito humano ou acanhamento.

Curiosamente, as cores da Virgem do Carmo não são o amarelo e o branco... Essas são as cores que o sincretismo religioso escolheu, para louvar Oxum, reverenciada no candomblé, na correspondência com devoções católicas. As cores carmelitas são o marrom e o creme. Assim se vestem as imagens da Virgem, os frades, as freiras e os irmãos terceiros carmelitas... O saber do povo é que fez mudar essa identificação no vestir dos membros da Ordem e hoje é essa a forma quase que unânime de identificação.

1909 / 2009 cem anos de carinho, de devoção, de fidelidade a Maria, invocada como Nossa Senhora do Carmo.

E os devotos todos, nestes dias que antecedem a festa do dia 16 de julho, lotam a Basílica do Carmo do Recife, para repetir o mesmo cancioneiro especialíssimo que só se repete nas festas carmelitas, conduzidos – há 60 anos – pelo mesmo grupo: o CORAL DO CARMO DO RECIFE. Aliás, foi para louvar a Mãe do Carmelo que um dia, há sessenta anos atrás, o coro surgiu, pelas mães e ações do frade visionário Frei Pio Moreira, Oc, já falecido.

Louvemos essa Padroeira que todos os recifenses quiserem ter e mereceram ver o seu desejo proclamado em verdade!

quarta-feira, 24 de junho de 2009

DIA DE SÃO JOÃO

A noite é muito fria.
Uma chuvinha miúda cai, fininha, fininha...
Fria noite de um junho esperado,
ardorosamente antecipado
nas bandeirinhas que se haviam multiplicado
e nas correntes de papel
que balançavam ao vento.

Seis horas.
Repete-se o ritual tão antigo e doce:
acendem-se as fogueiras!

Uma nuvem de odor forte domina os sentidos
e desperta gulosos paladares insaciados.

Lentamente,
o fogo doura carnes em espetos,
e tenros milhos, e batatas-doces...

Aos ruídos dos fogos
juntam-se vozes infantis que cantam
e vozes adultas que seguem essa alegria simples,
revivida, repetida, recriada, rememorada
no eterno São João brasileiro
com gosto de festa inesquecível!
(Publicado no meu livro "Cantando o amor o ano inteiro" - Paulinas, 1986)

sábado, 18 de abril de 2009

É TEMPO DA "FESTA DA PITOMBA" NOS MONTES GUARARAPES


A tradicional Festa de Nossa Senhora dos Prazeres é realizada, anualmente, após o domingo da Páscoa no Parque Histórico Nacional dos Guararapes, município de Jaboatão dos Guararapes, região metropolitana do Recife/Pernambuco, local considerado o “berço da nacionalidade brasileira”, por nele terem ocorrido as definitivas lutas contra os holandeses.

Comumente chamada Festa da Pitomba, por acontecer na época da safra da pitomba, uma fruta tropical muito apreciada no nordeste, é cercada de lendas que lhe conferem um misterioso ar sobrenatural.

Diz a tradição que, nas duas importantes batalhas travadas nos Montes Guararapes, entre brasileiros e holandeses, Nossa Senhora dos Prazeres teria aparecido milagrosamente aos soldados, protegendo-os e fazendo-os conseguir a vitória sobre os inimigos estrangeiros. Em agradecimento, o comandante das tropas brasileiras, o Gal. Francisco Barreto de Menezes, prometeu que, mandaria edificar, às suas custas, um altar-mor na capela existente naquele local. E cumpriu a promessa, sendo a Igreja dos Prazeres, por essa razão, uma Igreja “votiva” (nascida de um voto feito). Na entrada do templo, há uma placa que registra o acontecimento

Em 1656 (dois anos após a vitória definitiva obtida) a Capela foi entregue pelo seu benfeitor à Ordem Beneditina de Olinda, estabelecendo ele que, todos os anos, a partir de 1657, “deveria ser exaltada Nossa Senhora dos Prazeres, com grandes festejos e muita pompa.” E isso é feito até hoje, sendo os monges beneditinos responsáveis pos esse compromisso, que começa na segunda-feira, após o domingo de Páscoa e dura dez dias, com novena e a festa, propriamente dito, na qual é realizada a procissão com a imagem da Virgem, seguida por devotos que pagam promessas, caminham descalços e carregam consigo os ex-votos que vão depositar junto ao altar.

A primitiva Capela de Nossa Senhora dos Prazeres tinha sido construída nas primeiras décadas do século XVII, nas terras doadas pelo capitão Alexandre Moura, proprietário do Engenho Guararapes, no atual município de Jaboatão dos Guararapes. Com recursos da promessa feita em meio à luta, ela cresceu em importância artística, sendo ampliada entre 1676 e 1680, por Dom Macário de São João, um religioso pertencente ao Mosteiro Beneditino da Bahia. O prédio da tornou-se maior, a nave mais larga e foi feita a sacristia. As obras da capela-mor, dos altares laterais e do arco-cruzeiro, foram concluídas em 1720. Seu frontispício é atribuído ao arquiteto Francisco Nunes Soares, feito em 1795.

A festa está inserida no calendário cultural e religioso do Estado e nela - afora as celebrações religiosas ao redor do templo - acontecem festejos populares, com apresentação artísticas, barracas de artesanato, parque de diversões, repentistas, danças folclóricas e comidas típicas, sendo grande o consumo da pitomba, uma fruta muito apreciada pelo povo e que tem sua safra exatamente nesse período. Daí o segundo nome dado à comemoração: FESTA DA PITOMBA, uma festa que resgata tradições religiosas, de forte cunho histórico e cultural.

Neste ano de 2009, acontece a 352ª edição e é considerada uma das mais antigas festas religiosas-populares do Brasil.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

BLOCO DA SAUDADE - 25 ANOS TRAZENDO DE VOLTA O PASSADO...


O Carnaval de 2009 trouxe razões para um grupo carnavalesco comemorar 25 anos de uma trajetória corajosa, iniciada em 1984, com o propósito maior de trazer de volta as marchas-de-blocos que fizeram a marca-registrada de carnavais antigos e foram sendo esquecidas ao longo dos tempos...

Muitas dessas canções falavam de blocos líricos, não mais existentes e de velhos compositores, permitindo o resgate também de nomes de pessoas e agremiações carnavalescas, citadas nas músicas resgatadas, muitas criadas por gente de saudosa memória. Foi assim que o povo, pelas ruas, descobriu a beleza e curiosidade de grupos antigos, embalados pelo encanto de cantar juntos – no Recife ou em Olinda – seguindo o BLOCO DA SAUDADE que, este ano, está em festa!

Até a escolha de uma “máscara” como estandarte tornou-se emblemática... Lá vinha, pelas ruas mais diversas, um grupo de foliões, vestidos com as cores azul e encarnado (tão simbólicas nos “Pastoris” natalinos de Pernambuco) e o seu estandarte já remetia o público para o passado, quando mascarados corriam soltos pela folia carnavalesca, tocando suas castanholas.

A forte presença do bloco nas ruas era, principalmente, sentida através do repertório musical. Cabia-lhe “relembrar o passado” não tão distante, de outros blocos, outros tempos e, sobretudo, compositores de outros carnavais...

E foi por ele que jovens e velhos ficaram sabendo que, antes deles, blocos os mais diversos seguiam aqueles percursos, saboreando a mesma alegria e espalhando beleza: “Apois-Fum”, “Toureiro”, “Flor da Lira”, “Cartomantes”, “Corações Futuristas”, “Flor da Magnólia”, “Andaluzas”, “Bloco das Flores”, “Pavão Dourado” e outros, outros, outros...

Depois, no rastro desses 25 anos de permanência, de trazer de volta às ruas as orquestras de pau-e-corda, o BLOCO DA SAUDADE viu surgirem outros blocos semelhantes, com o mesmo gosto de tempos distantes e a mesma cadência dolente do caminhar pelas ruas, sempre a cantar a natureza, a beleza, o amor... E nenhuma rivalidade marcou esse novo tempo!

Isso é ser tradicional sem deixar a modernidade de lado. Gravar o passado no presente. Recordar o que se teve de bom e arrojar-se nos dias atuais, com tanta garra e tanto ardor que, esse bloco aniversariante mereceu ser admirado por todos, inclusive (e, talvez, principalmente) pelo profeta do século XX, Dom Helder Camara, a quem nunca deixou de saudar, em cada dia de aniversário, nem mesmo quando esse aniversário era também saudade, no seu centenário, comemorados neste fevereiro que se vai, com direito a das músicas especiais, do grande Getúlio Cavalcanti!

Tomara que essa “saudade” continua a inspirar gente de bem com a vida, contagiando os que hoje se iniciam na apreciação dessa forma de frevo tão especial, que é o frevo-de-bloco! Tomara que possamos seguir os blocos, com o coração em festa, porque um deles – pioneiramente e no tempo de agora – teve a coragem de ousar muito!

Ave, BLOCO DA SAUDADE! Que bom que você existe!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

CARNAVAL NA ILHA DE ITAMARACÁ


Para chegar na ilha, atravessa-se um caminho longo entre coqueirais e uma ponte sobre o Canal de Santa Cruz... Ali está a antiga Capitania Hereditária de Itamaracá (nome que significa “Pedra que canta”), hoje pertencente a Pernambuco. Aqui está a ilha para tantos correm, ávidos pelo sossego de suas praias, suas construções modernas ou históricas, onde irrompem - de vez em quando – barulhentos e irreverentes blocos que cantam e dançam, lembrando que este é o tempo do Carnaval.

Não fossem esses cortejos inesperados ou os shows noturnos oficiais programados pelos órgãos públicos e para uma multidão presente na ilha, Itamaracá seria apenas a praia, as piscinas surgidas junto aos arrecifes na maré baixa, os passeios no “trenzinho” para tantos pontos pitorescos, a obrigatória visita ao secular Forte Orange, a ida à Vila Velha (antiga capital), a travessia para a Coroa do Avião, os sabores vendidos à beira-mar (camarões, sururus, caranguejos, tapiocas, beijus, água-de-coco, cocada - de coco comum ou coco queimado – caldinhos, passas de caju, bebidas geladinhas) e tantas outras tentações gastronômicas...

Tudo isso é Itamaracá. Um lugar para quem quer agitação ou tranqüilidade. Um lugar para longas caminhadas à beira mar ou para deitar-se ao sol, dentro ou fora d´água. Um lugar para desfrutar a natureza ou acomodar-se numa rede sob sua doce brisa. Um lugar para orgulhar-se mais ainda desse estado especial chamado PERNAMBUCO, tão rico e tão diversificado na sua forma de ser e, por tabela, envaidecer-se por viver aqui um dos “Patrimônios Vivos” do Estado, a cirandeira Lia.

Tudo isso é Itamaracá, com seus segredos, suas lendas, suas mangas sem caroço, seus locais conduzidos por cientistas como base avançada da UFPE, sua magia e sua forte presença na história do Brasil!

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O "GALO DA MADRUGADA", PARA MIM, É SAUDADE!



A manhã ensolarada convida ao frevo a multidão que segue o GALO DA MADRUGADA, pelo centro do Recife... Como sempre, alegorias enfeitam essa cidade de rios e de pontes. Gente fantasiada, irreverente e criativa por todos os lados. O frevo “rasga” os espaços lotados. Aqui e ali outros ritmos pernambucanos abrem lugar para mostrar a diversidade desse carnaval bonito e diferenciado de todos os outros estados do Brasil. Carros alegóricos e trios elétricos se sucedem, todos compromissados em executar apenas a música plena de riqueza desse Pernambuco de tantas nuances musicais...

De longe, olho a multidão e escuto seu “grito de guerra”: “Ei, pessoal! Vem, moçada! Carnaval começa no Galo da Madrugada”... E esse refrão aumenta a minha saudade de outros carnavais, quando um enorme palco fechava a Ponte da Boa Vista, para esperar que o Galo chegasse... Era ali, naquele espaço privilegiado, que pontificava o talento, a animação e o virtuosismo do Maestro FERNANDO BORGES, que por horas e horas mantinha aceso o ardor da multidão que o rodeava.

Era um deslumbramento! Todo aquele povo dançava e cantava junto com ele! Para a frente, toda a Avenida Guararapes... Para os lados, toda a Rua do Sol, beirando o Rio Capibaribe... Para trás, toda a Avenida Conde da Boa Vista e a Rua da Aurora, essa também cortejando o rio... Horas de frevo genuíno, de canções fora-de-época, adaptadas para o alucinante ritmo pernambucano.

Fernando Borges era soberano naquele palco! Sua alegria, sua resistência, sua capacidade de animar e fazer pular todo o enorme público que lotava o centro recifense, tornava a espera uma delícia, até que o cortejo chegasse e ele cedesse ao “Galo” o direito de conduzir o povão a partir da Praça Joaquim Nabuco.

Já se passaram dez anos desse carnaval, que esperava o “Galo da Madrugada” chegar ao centro do Recife, mantendo a chama de força e da animação, para continuar com os trios depois que o “Esperando o Galo” silenciava.

Até o dia que o Maestro calou-se para sempre! Até o dia em que o Carnaval perdeu o seu maestro, agora reconhecidamente patrono da Escola Municipal de Frevo, que leva o seu nome e cultua a sua memória.

Hoje, um galo de proporções gigantesca enfeita a mesma ponte que fez o delírio de tantos. O maestro de muitos carnavais foi substituído por outros artistas, cada um dando o melhor do seu talento para manter viva a tradição carnavalesca que tanto nos honra.

Para mim, admiradora de todo esse passado, o “Galo da Madrugada” é também a lembrança do meu irmão, do meu ídolo, do meu Maestro FERNANDO BORGES, que deve – com certeza – “estar fazendo Carnaval no céu”, como cantou o compositor Getulio Cavalcanti...

Para mim, o Galo da Madrugada é, principalmente, saudade!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O CARNAVAL DE OLINDA JÁ COMEÇOU...


Janeiro de 2009. E o Carnaval de Olinda já começou... É incrível mas é verdade! Tanto tempo antes e o clima da cidade já é de festa...

Olinda é assim. Antecipa um reinado de Momo no qual é soberana. Sacode a poeira de adereços guardados, retoca fantasias de outros tempos e sai, livre e liberta, abraçando seus filhos e seus admiradores, no movimento folião que começa muito antes do tempo oficial, que os calendários registram.

Ali, bombos e atabaques rememoram batuques de origem africana, nos Maracatus ruidosos e convincentes... Aqui, instrumentos de pau e corda acompanham dolentes cantores que amam o Frevo-de-bloco... Passistas afiam seus passos, ao som da Banda que toca o Frevo-de-rua rasgado e contagiante... Bonecos-gigantes, com roupas de cetim amassadas, saracoteiam entre eles... E mascarados experimentam caracterizações ultrapassadas, enquanto imaginam de que forma disfarçarão sua verdadeira face quando o Carnaval chegar pra valer...

Não há nada igual, no Brasil! Nenhum Carnaval é tão livre e tão espontâneo, tão forte e tão onipresente nesse preparar do corpo e da alma para uma folia que deveria durar três dias mas que, em Olinda, ganha fórum de quarentena, em “acertos-de-marcha” intermináveis, preparando musicistas e cantores para as canções de seus blocos, suas troças, seus ursos, seus clubes, seus maracatus e até suas escolas-de-samba.

Um século nos separa do começo dessa folia espalhado por ladeiras, ruas e becos seculares. Aquele “entrudo” herdado dos portugueses, aqueles “banhos-de-cheiro” que faziam a festa dos jovens muito mais recatados, organizou-se em grupos que foram se oficializando, estabelecendo normas, gerando deliciosas agremiações que, desde 1901 até os dias de agora, garantem a animação pelos sítios históricos, disputando a preferência de simpatizantes, com torcidas ruidosas, de mãos e braços unidos, como uma corrente humana, defendendo e acompanhando seus preferidos.

Uma história que já foi contada em livros ontológicos por apreciadores e pesquisadores dos Carnavais olindenses, como José Ataíde (no seu “Olinda, Carnaval e Povo – 1901/1981”) ou Thales Galhardo (em “Carnavais Olindenses – História e Metamorfose numa Travessia de Cem Anos – 1907/2007”), Uma história que se reescreve a cada ano, mantendo tradições centenárias mas aberta ao novo, à irreverência, à contagiante alegria.

Repetindo: o Carnaval de Olinda já começou... Venha conferir!!!

terça-feira, 30 de dezembro de 2008

UM SANTO EM FORMA DE BONECO-GIGANTE



Para quem não nasceu ou não conhece Olinda e Recife, imaginar que um padre, um bispo, um homem santo, pudesse um dia ser materializada em um boneco-gigante, pareceria – talvez – quase uma heresia... Para nós, não! Absolutamente, não!

É aqui a “pátria dos bonecos”, tanto os bonecos pequenos, aos quais chamamos MAMULENGOS (de “mão molenga”, por ser manipulado vestido como luva nas mãos que se agitam, dando vida aos pequenos “seres”), como aos bonecos-gigantes, enormes, carregados sobre os ombros de homens experientes, que com eles frevam, dançam, seguem cortejos pelas ruas, ladeiras e becos da cidade alta, em Olinda, ou nas ruas do Recife antigo.

Bonecos são sempre bem-vindos! Crianças e adultos deixam aflorar o lúdico que guardam no coração, para enternecerem-se diante de pequenos títeres/fantoches, que criam vida através dos seus manipuladores, ou postando-se diante de um gigantão, com três metros de altura, saracoteando para lá e para cá, destravando a tristeza e reacendendo a alegria.

Essa aparição inusitada aconteceu neste 30 de dezembro, pelo milagre da tradição popular e pela ousadia de abnegados “helderólogos”, que quiseram dar “vida” ao boneco-gigante HELDER CAMARA, de mãos para o alto, como a pedir por nós todos que por aqui ficamos, saudosos de sua presença material, de sua alegria carnavalesca (típica de quem nasceu num domingo de Carnaval, há quase cem anos).

O Dom Helder-boneco, criado pelas mãos de Sílvio Botelho (um dos mais famosos bonequeiros de Olinda) veio para cumprir a tradição que tem sido mantida, e que transforma em gigantes as figuras que o povo amou, qualquer que tenha sido a razão do afeto despertado... O Dom Helder-boneco veio juntar-se ao cortejo onde já estão o mestre Gilberto Freyre, o compositor Capiba, o Batata (do Bacalhau do Batata), o sociólogo Betinho e tantas outras pessoas... E sua concretização foi um sonho de Frei Aloisio Fragoso e do Grupo "Mulheres contra o Desemprego".

É assim em Pernambuco. Os que partem, de certa forma permanecem conosco em forma de boneco-gigante, povoando os espaços com sua onipresença, sempre com o rosto alegre de quem viveu na paz dos justos e hoje contemplam a legião dos seguidores deixados.

Nosso Dom estará conosco, para sempre, em nossos corações. E, para diminuir um pouco essa saudade, estará conosco agora sob a forma, volume e graça de um boneco, como manda a tradição pernambucana! Viva!
Foto: Rodrigo Lôbo/JC Imagem

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

FEIRA DE CARUARU - UM PATRIMÔNIO DO BRASIL



A feira livre é um espaço público de integração social, que acontece nas comunidades e praticam um comércio voltado a venda de produtos frescos (verduras, frutas, carnes, goma, etc) aos moradores da localidade onde semanalmente existe.

Pelo Brasil afora não é comum que artistas participem das feiras livres. Não parece, em princípio, ser ali um espaço também destinado à apresentação e venda de produtos artísticos e artesanais. Mas, como o comércio que se estabelece é operado por seus próprios donos, nada impede que artistas e artesãos considerem aquele lugar também como uma “vitrine” para mostrar – e vender - a sua Arte.

Em Pernambuco uma feira quebrou essa quase certeza, começando de forma singela e despretensiosa, tornando-se, com o tempo, uma referência tão grande que foi tombada como “Patrimônio Imaterial Brasileiro”. Estamos falamos da FEIRA DE CARUARU, no agreste do Estado,

Caruaru, no início do séc. XVIII, era uma fazenda de gado, ponto de apoio aos viajantes que passavam rumo ao sertão... Junto à pequena capela de Nossa Senhora da Conceição, aos domingos, juntavam-se os moradores e eventuais visitantes, para rezar e trocar mercadorias entre si e com outros comerciantes de fora. Foi essa a origem da grande feira que hoje atrai multidões, que dura a semana inteira e que foi crescendo, devagarzinho, diversificando seus produtos pouco a pouco.

Vendia-se de tudo: frutas, hortaliças, cereais, carne de boi e de bode, rapadura, artesanato, utensílios populares, roupas, calçados, chapéus, bijuteria...No começo, quase sempre não era “dinheiro” a moeda de “troca” mas a própria possibilidade de barganhar um bem por outro bem. E o crescimento desse comércio informal foi ganhando uma força tão grande que os pesquisadores afirmam: “Caruaru nasceu da Feira, e com a Feira: são inseparáveis”. E a voz do povo repete: “A Feira é de Caruaru e Caruaru vive para e em função de sua Feira”. Isso foi assim no passado e o é até hoje.

Cantadores de cordel vieram caminhar pela Feira, improvisando versos. O compositor da cidade, Onildo Almeida, numa procura inusitada identificou todos os produtos à venda com terminação em “u” e compôs a deliciosa canção “Feira de Caruaru”, com rimas no mínimo curiosas “Tem massa de mandioca, batata assada, tem ovo cru. Banana, laranja e manga, batata-doce, queijo e caju”, canção essa imortalizada em disco pelo grande Luiz – Lua – Gonzaga... Outras canções, outros escritos foram registrando esse saber popular, a começar pela descoberta do Mestre Vitalino e seus seguidores, diversificando a feira de tal forma que tornou-se foco do levantamento primoroso elaborado pelos alunos e técnicos da UFPE (Janine, Jacira, Bárbara, João Paulo, Carlos Frederico, Felipe – fotógrafo e cinegrafista/, e o arquiteto Gustavo,) coordenados pelo Doutor em Antropologia, Bartolomeu (Frei Tito) Figueiroa de Medeiros, sob a supervisão da 5ª Superintendência Regional do IPHAN, com sede em Pernambuco, através dês suas entusiastas pesquisadoras Mabel Baptista e Graça Villas.

Foram inúmeras as viagens a Caruaru, para as entrevistas, o preenchimento de fichas, as gravações, as fotos recolhidas. O dossiê tomou forma, foi discutido, recebeu importantes inserções da bibliografia existente, em especial a excepcional obra do mestre Nelson Barbalho, que debruçou-se sobre a vida e a história caruaruense, eternizado-SE nas publicações feitas pelo Centro de Estudos de História Municipal, um órgão completamente voltado para o resgate de cada município pelo saber e pelo amor de seus historiadores.

E o resultado não podia ser outro. Nacionalmente, em janeiro de 2007, a FEIRA DE CARUARU foi considerada PATRIMÔNIO IMATERIAL, o segundo título dessa natureza concedido a um reconhecido bem intangível no País. Tombava-se o saber popular, a permanência de uma forma singular de proceder, um conjunto de tradições merecedoras de reconhecimento e valorização, todas ocorridas em um lugar delimitado, pleno de vida! .

Suas muitas “feiras” contidas numa só hoje estão protegidas... A “Feira das Frutas e Verduras”; a “Feira de Raízes e Ervas Medicinais”; a “Feira doTroca-Troca”; a “Feira de Flores e Plantas Ornamentais”; a “Feira do Couro (calçados, chapéus, bolsas...)”; a “Feira Permanente de Confecções Populares /“Feira de Roupas”; a “Feira dos Bolos, seção de Goma e Doces”; a Feira das Ferragens”: a “Feira de Artigos de Cama, Mesa e Banho”; a “Feira das Galinhas”; a “Feira do Fumo“: a “Feira dos Importados”; a “Feira do Artesanato”; a “Feira da Sulanca” e a “Feira do Gado”. Todas continuarão sua ascensão, enchendo Caruaru de gente, de sons, de orgulho, de crescimento e de modelo a ser seguido...

E isso só acontece quando há a Verdade no que se faz, no que se acredita, no que se propaga como saber para as gerações futuras. E é isso que apregoa a imortal melodia de Onildo Almeida:

A feira de Caruaru
Faz gosto a gente ver
De tudo que há no mundo
Nela tem prá vender
Na feira de Caruaru
I
Tem massa de mandioca
Batata assada, tem ovo cru
Banana, laranja e manga
Batata-doce, queijo e caju
Cenoura, jabuticaba,
Guiné, galinha, pato e peru
Tem bode, carneiro e porco
E se duvidar inté cururu
II
Tem cesto, balaio, corda
Tamanco, gréia, tem tatu
Tem fumo, tem tabaqueiro,
Tem peixeira e tem boi zebu
Caneco, alcoviteiro,
Peneira boa e mel de uruçu
Tem calça de arvorada
Que é prá matuto não andá nu
III
Tem rede, tem baleeira
Móde menino caçá lambu
Maxixe, cebola verde,
Tomate. coentro, couve e chuchu
Almoço feito na corda
Pirão mexido que nem angu,
Mobia de tamborete,
Feita tronco de mulungu
IV
Tem louça, te ferro velho,
Sorvete de raspa que faz jaú
Gelado caldo de cana,
Planta de palma e mandacaru
Boneco de Vitalino, que são
Conhecido inté no Sul
De tudo que há no mundo
Tem na feira de Caruaru”

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

MESTRE SALUSTIANO - UM ORGULHO PARA PERNAMBUCO QUE SE FOI...



Houve um tempo – e já faz algum tempo – que quem passava no Jardim Fragoso, próximo à FUNESO, apreciava um “terreiro” de festas, muito simples, mas de uma energia contagiante... Quantos alunos, a caminho de sua obrigação discente, não pararam por breves momentos, para ver a alegria e a verdade daqueles “brincantes”, que varavam madrugadas, e ali estavam quase todas as noites. Quantos professores, também.

Um dia, minha curiosidade aguçou-se e eu também parei. Fiquei pouco tempo, da primeira vez. Fui embora dar aulas com a sensação de estar diante de um verdadeiro mestre na arte popular e decidi que voltaria. Assim o fiz muitas vezes, até o dia em que o líder daquele “brinquedo” aproximou-se, com seu riso largo e inesquecível, para perguntar-me: “em que posso servir a madama?” Disse-lhe sem pestanejar: “Que tal o senhor ensinar sua arte nas escolas de Olinda?”. E ele, talvez até desconfiado, não teve dúvida em dizer que “a gente conversava sobre isso”. Marcamos o encontro para o dia seguinte, na Secretaria de Educação e Cultura do Município, onde era eu a titular. Este foi o meu primeiro encontro com Salustiano, o primeiro de uma série que se seguiria, de descobertas do extraordinário artista que me havia atraído tanto, com seus festejos pobres e singelos, mas marcados pela força daquilo que é genuinamente popular.

Pouco tempo depois o Mestre Salustiano estava nas escolas de bairros populares de Olinda... A estratégia para remunerá-lo foi discutida e autorizada pelo Prefeito Germano Coelho e, desde o primeiro momento, foi sempre como “Mestre” que ele foi tratado. Mestre do maracatu. Mestre da ciranda. Mestre do mamulengo. Mestre do cavalo marinho. Mestre, sem vida acadêmica, doutorado nas estradas da vida e portador de talentos evidentes. Ainda naquela gestão, o Carnaval ganharia seu primeiro “Encontro de Maracatu Rural”, um lindo cortejo de grupos de maracatus pelos sítios históricos, trazidos e coordenados por ele, atividade que entrou no calendário cultural da cidade de forma permanente.

Passou-se o tempo. Olinda havia ganho a chance de aprender a fazer arte com um artista de verdade. A FUNDARPE percebeu o talento do Mestre.. E lá se foi ele, para a primeira experiência a nível estadual, levado pelos mãos de Leda Alves. Depois, o encantamento se deu com o grande Ariano Suassuna, que o quis na assessoria da sua Secretaria de Cultura, mesmo que – como contam – ele tivesse reagido de forma muito jocosa ao convite. Chamado por Ariano para “ajudá-lo a escrever coisas de cultura”, ele teria dito: “mas eu nem sei escrever...” E Ariano recrutara, de forma prática e definitiva: “Escrever eu sei. Eu quero é que você pense!”. Estava formada aquela “dobradinha” que haveria de carregar Salustiano do seu terreiro, para investir no sonho chamado “Ilumiara Zumbi”, na Cidade Tabajara, ainda em Olinda.

Novamente aí a vida nos aproximou muito. O pedido de Ariano para que os Técnicos da SEPACTUR elaborassem o projeto do Ilumiara foi a razão. E voltamos a nos encontrar, a conversar, porque era ali que eu agora servia à Olinda, como Secretária... Idas e vindas naquele espaço ainda descampado. Idéias. Projetos sendo propostos... E o sonho de Salustiano tornou-se concreto e assim o é até hoje.

O Governo Estadual o considerou “PATRIMÔNIO VIVO DE PERNAMBUCO”, dando-lhe uma aposentadoria e a honraria da escolha, reconhecendo nele um verdadeiro Mestre do Saber Popular, como em outras esferas já o haviam reconhecido como “Mestre por notório saber”. Este homem, que crescera pelas roças do interior do Estado, vendo aflorar em si dons que desconhecia e desenvolvendo esses dons, viera e vencera na cidade grande. Este homem, que enfrentou uma platéia de idioma desconhecido, em Santiago de Cuba, no “17º Festival Latino-Americano de Cultlura”, a todos convenceu porque sua Arte era especial. Este homem foi pai de muitos filhos e delegou para quase todos a força do seu saber, iniciando-os nos brinquedos que tão bem conduzia e a eles repassando essa herança invejável...

Um dia, estando ele se apresentando na festa do Bonfim de Olinda, minha filha adolescente, fascinada com o domínio do público que ele mostrava, com as cantigas improvisadas, com sua rabeca tão bem tocada, fez um comentário que eu jamais esqueci: “se esse homem tivesse estudado, o que ele hoje não seria...”. Precisa não, filha, disse eu... Esse nasceu para ser grande, mesmo sem estudos formais. Esse, é o Mestre Salustinano - PATRIMÔNIO DE PERNAMBUCO - que se foi agora , para a derradeira viagem, encantando-se, para sempre!

Sua herança permanecerá, graças a Deus!

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

FOLCLORE






Quem é que balança
as cadeiras, gingando,
ao som do batuque,
ouvindo o ganzá?

Quem é que acende
o fogo de lenha?
Quem come pamonha,
quem faz munguzá?

Quem é que o barro
amassa com jeito,
fazendo boneco
que só falta falar?

Quem é que, trançando
o fio, a corda,
prepara os cestos,
faz os caçuá?

Quem é que, cantando,
cuida do trabalho?
Quem nina os filhos
e na “roda” girou?

Quem é que, com ervas,
cura as feridas?
Quem é que com cera
promessas pagou?

***************

É ele, o homem
do povo, da gente,
que a sabedoria
assim conservou.

É ele, o homem,
o bom brasileiro que,
sem o saber,
o folclore guardou!

Publicado no livro “Cantando o amor o ano inteiro”, Ed. Paulinas, 1986)

domingo, 3 de agosto de 2008

03 DE AGOSTO - DIA DO CAPOEIRISTA



Dança, luta, acrobacia e jogo. Capoeira é um pouco de tudo isso... O praticante é atleta, bailarino, músico e poeta a serviço da perpetuação da cultura brasileira.

Hoje, dia 03 de agosto, é comemorado o DIA DO CAPOEIRISTA, homenagem merecida, principalmente depois que a Capoeira foi reconhecida como Patrimônio Cultural Brasileiro, título concedido pelo IPHAN, no dia 15 de julho próximo passado.

A vida de quem pratica a capoeira nem sempre foi fácil... Os capoeiristas já foram considerados “desordeiros e contraventores da Lei”, no Brasil... Tanto que, em 1890, dois meses depois da proclamação da República, o primeiro ato do presidente recém-empossado foi prender todos os praticantes de capoeira e envia-los para Fernando de Noronha, onde existia um uma espécie de "presídio de segurança máxima”.
Hoje a modalidade é praticada em todo o Brasil e em muitos outros países, como um esporte ou uma arte originária do nosso País. Temos, portanto, razões de sobre para parabenizar todos os praticantes – instrutores e estudantes – da Capoeira, neste dia especial, DO CAPOEIRISTA!

sexta-feira, 25 de julho de 2008

O QUE É CULTURA?



Há quem pense
Que cultura só se aprende na escola
Ou que a cultura acadêmica
É aquela que prevalece sobre todas...

Ah! Como o homem se engana...

Como é rica a cultura
Que nasce e cresce no meio do povo,
Que se enriquece dos saberes e fazeres
Dos homens de todos os tempos...
Que se expressa na música, na dança,
Na fala, nos gestos, nos modos,
Nos sabores, na vida...

Culto é todo homem que respira,
Que se reconhece ser humano em crescimento,
Que busca aprender cada vez mais,
Junto aos que carregam o compromisso
De repassar o saber herdado...

Culto é o homem que vive, ama,
Traduz de muitas formas o seu amor
E faz do seu conhecimento
Um bem a ser repartido com muitos,
Sendo fonte de onde jorra a herança recebida...

Culto é o homem que sabe chamar, atrair,
Dividir o saber, partilhar o que tem
No intimo do seu coração,
Como uma força a ser distribuída
E que cresce exatamente porque se fez partilha...

Culto é todo homem, cada um a seu tempo,
E com o que armazenou dentro de si,
Sendo farol nas caminhadas
A iluminar a estrada por onde seguem os outros homens,
Muitos perdidos, à espera desse facho clareador...

Há quem pense
Que cultura é só para os sábios?
Pois sim!