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quinta-feira, 4 de junho de 2009

EPOPÉIA FRANCESA EM FERNANDO DE NORONHA


Um avião da Air France desapareceu, recentemente, a certa distância de Fernando de Noronha. O mundo se uniu para procurar causas, evidências do que parecia – e veio a se confirmar – uma tragédia.

O curioso desse acidente foi ter ele ocorrido tão próximo do lugar onde – em 1927 – os aviadores franceses vieram se instalar, para prestar socorro técnico aos hidroaviões que amerrissavam naquelas águas.

Foi a Compagnie Genèrale Aeropostale - uma das precursoras da Air France - que se instalou na extremidade da ilha principal, na região que até hoje é chamada exatamente assim: “Air France”. Era o ano em que a antiga Lateocoère (1ª empresa comercial francesa de aviação, criada em 1918) tinha sido reformulada, para expandir sua ação e prestar apoio ao Correio Sul que se iniciava. E a decisão foi instalar-se em meio ao oceano Atlântico, na ilha de Fernando de Noronha.

Na região escolhida, três edificações foram erguidas, com todo o conforto possível, inclusive com geração própria de energia de ventos, farto armazenamento d´água, excelentes banheiros e uso de “frigidaire” (geladeira) quando, no arquipélago, - quando somente os italianos, também instalados ali para serviços de cabografia transoceânica -, tinham essas regalias. Havia ainda uma Rádio Emissora que garantia a orientação necessária.

Esse espaço acolheu famosos aviadores franceses, como Jean Mermoz, Saint-Exupèry, Debry, Jean Gerard Fleury, este último responsável pelo resgate histórico de toda a epopéia da aviação francesa e a divulgação desse trabalho em diversas obras publicadas pelo companhia aérea Air France.

O 1º avião terrestre com escala transoceânica foi o “l´Arc-en-ciel”, em 14 de junho de 1934. O terreno se revelando impraticável como escala, trouxe o “l´Arc-en-ciel” no mesmo dia para Natal. Alguns vôos aconteceram durante algumas semanas em “Fokker”, para melhorar a rapidez do correio entre Noronha e Natal: trajeto Dakar – Noronha. A Estação de Rádio funcionou até 1940 e também durante a 2ª Guerra, com viagens dos aparelhos entre as Américas e a África.

A base da Aeropostal / Air France de Fernando de Noronha prestou auxílio aos hidroaviões e aviões que procuraram o arquipélago para apoio e solução dos problemas técnicos com seus aparelhos de vôo. Ela existiu para que - no mar próximo a ela -amenisassem os seus aeroplanos e se fizesse o transporte postal entre o continente europeu e o americano, com o apoio dos “navios de avisos”, fundeados nas proximidades da ilha, equipados com estações raioganiométricas, fornecendo rotas seguras mesmo à noite. Depois, essa atividade continuou a ser desenvolvida com aeronaves que aterrisavam na pista de pouso feita, a pedido da Companhia, pelo Departamento de Aeronáutica Civil.

Hoje grande parte do patrimônio construído não existe mais. Na única casa que resta – chamado “Espaço Cultural Air France” – funciona a Associação de Artistas e Artesãos Noronhenses. Uma requalificação que transformou em Cultura o que foi epopéia e história.

Fotos: acervo do "Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha". Doação: Oswaldo Lacoste
  • amerissagem de hidroavião francês
  • região da Air France
  • o diretor operando instrumentos.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

A PRISÃO DE ARRAES EM FERNANDO DE NORONHA


”Quando deixou o Palácio do Campo das Princesas, já sem mandato, Miguel Arraes foi levado para uma cela no Quartel do Socorro, em Jaboatão dos Guararapes. Lá, aguardou a transferência para a prisão no arquipélago de Fernando de Noronha, no dia seguinte... No arquipélago, foram meses de prisão, interrompidos apenas uma vez, quando foi autorizado a voltar ao Recife para assistir ao casamento da filha Ana Lúcia com Maximiniano Campos, no dia 7 de agosto de 1964... A cerimônia foi celebrada na capela da Base Aérea do Recife, onde Arraes pôde assistir à celebração, “Ele pôde abraçar a filha e voltar como prisioneiro à ilha”, descreveu o amigo Antônio Callado, no prefácio do livro Miguel Arraes – Pensamento e Ação Política."
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02 de abril de 2009. Uma data importante, que assinala os 45 anos do confinamento de Miguel Arraes de Alencar, Governador de Pernambuco, em Fernando de Noronha.

Deposto no dia 1º de abril de 1964, no rastro do golpe militar que aconteceu no País, o destino deste nordestino foi definido como os de tantos outros políticos do passado: a segregação num Arquipélago longínquo, escolhido para abrigar um presídio para presos comuns, mas que havia acolhido também, esporadicamente, em dois séculos de existência, grandes líderes dos conflitos nacionais, como o Gal. Abreu e Lima, o poeta Jeronymo Villela, o ex-governador de Pernambuco Barbosa Lima, e Gregório Bezerra, Maringhela, Agildo Barata Ribeiro, entre tantos, através dos tempos.

Naquele 02 de abril, era para lá que haveriam de seguir mais uma leva de de trabalhadores, estudantes, funcionários públicos, juristas, líderes sindicais e homens que constituíam o poder legítimo, outorgado pelo povo. Entre eles, Miguel Arraes que governava Pernambuco de forma ousada e fecunda.

Na ilha, o único privilégio que mereceu foi o de ficar detido em alojamento separado dos demais prisioneiros, tendo como companheiro, dividindo um mesmo “iglu” (como são chamadas as construções do antigo “Posto de Observação de Mísseis Teleguiados”, implantado e ocupado pelos americanos na região do Boldró, entre 1957 e 1965) com o ex-governador de Sergipe, João de Seixas Dória. Ao longo do dia, somente uma hora para o “banho de sol” e fazer refeições, sob esquema de segurança.

Foram meses ilhado... Poucas vezes foram concedidas visitas de familiares (não só a ele como a todos que mereceram o mesmo castigo). Uma só saída da ilha, autorizada pelo IV Exército: para assistir, em 07 de agosto daquele ano fatídico, ao casamento da filha mais velha, realizado na Base Aérea do Recife.

Depois, trazido de volta ao continente quase nove meses depois, viria o exílio, a anistia, a volta para casa e, na virada da História, a nova eleição vitoriosa para Governador de Pernambuco... E, como um presente especial, coube-lhe receber Fernando de Noronha como pertencente ao Estado, pela Constituinte de 1988, que extinguiu os territórios federais e tornou o Arquipélago um Distrito Estadual, reintegrando-o a Pernambuco.

Foi curiosa a presença daquele homem público de poucas risadas, em 1988, como Governador, no mesmo lugar onde tinha sido confinado (hoje, sede de uma das empresas de mergulho da ilha). Naquele momento solene, ao seu lado estavam alguns dos presos ilhados de 1964, convidados por ele... Estava também o então Governador do TFFN, Jayme Augusto da Costa e Silva (identificado, pela Imprensa, como seu “carcereiro”).

Custa a crer que passaram-se 45 anos... Custa a crer que nós vivemos esse tempo, de perda e retomada da liberdade, no ciclo da vida que é concedida a cada um e que hoje, dia 02 de abril de 2009, podemos reverenciar um dos mais importantes políticos do nosso tempo, que viveu em Fernando de Noronha o isolamento, a solidão, a absoluta falta de liberdade. Que não teve chance alguma para se aperceber da profunda beleza que o rodeava, confinado naquele “calabouço” da região do Boldró!

Custa a crer que passaram-se 45 anos...