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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

LEMBRANDO MALBA TAHAN


O vitorioso evento "Festa Literária Internacional de Pernambuco - FLIPORTO", no seu importante espaço "FLIPORTO-CRIANÇA 2011", homenageará uma figura quase lendária dentre os brasileiros: o professor e escritor MALBA TAHAN.

Ninguém, nenhum estudante dos anos cinquenta, sessenta, resistia à enorme curiosidade de ler "O Homem que Calculava". E todos acabavam fascinados, após a leitura, com a genial capacidade para a Matemática evidenciada no livro, nascido do cérebro privilegiado do escritor árabe Malba Tahan. Pasmo maior era sabê-lo brasileiríssimo, escondido pelo arguto e inteligente olhar do Prof. Júlio César de Mello e Souza, considerado o maior divulgador da "Ciência dos números", com mais de cem livros publicados e um fascinante contador de histórias verdadeiras ou inventadas.

Nascido no Rio de Janeiro, em 6 de maio de 1895, Júlio César viveu quase toda a infância na cidade paulista de Queluz, retornando ao Rio em 1905 para estudar. Cursou Engenharia Civil. Tornou-se professor de várias discipllinas, inclusive - e principalmente - de Matemática. Aos poucos, sua obra fantástica foi surgindo: fábulas, lendas antigas, romances, com dados matemáticos, em enredos quase sempre passados no Oriente e publicados com o pseudônimo "Malba Tahan". Como educador atuou em escolas conceituadas e ministrou cursos e treinamentos para educadoras e estudantes de magistério (as "professorinhas dos cursos primários"), treinando-as na difícil arte de contar histórias. E foi assim que morreu, no Recife, em 18 de junho de 1974, no Hotel Boa Viagem, aos 79 anos, quando iniciava uma capacitação para docentes da rede estadual de educação.

Lembro-me, fascinada, daquela figura veneranda, no auditório do Centro Interescolar Almirante Soares Dutra, naquele dia... Custava crer que um homem com quase 80 anos pudesse encantar daquela forma uma platéia jovem, presente no curso "A Arte de Contar Histórias"... Ao longo de um período de trabalho, incansável, todo tempo de pé, com seu jaleco branco quase até os joelhos e um grande apontador de madeira (que lhe ampliava os movimentos), Malba Tahan despediu-se da vida do jeito que sempre viveu: lecionando e divertindo sua exigente assembléia. Eu coordenava aquele curso. Coube-me acompanhá-lo, no fim da tarde, ao então Secretário de Educação de Pernambuco, Cel. Costa Cavalcanti e assistir à entrevista dada aos jornais locais, contagiada pelo seu fascínio diante da vida, seu bom humor, sua juventude escondida nas rugas do seu rosto que desafiavam os anos...

Perto das 19h deixei-o no hotel, em Boa Viagem. Uma despedida fraterna, da educadora diante do seu ídolo-professor. Eu não sabia que seria a última a estar com ele em vida... Naquela madrugada seu coração o traiu. E atônitos. todos nós, os que acorreram na manhã seguinte para a segunda aula do curso, choramos a perda do mestre inigualável!

Sua obra ficou. Muitos dos seus livros foram traduzidos em diversos países. O saber pedagógico estava a salvo naquilo que ele deixou, dismistificando a "vilã" das escolas (como a Matemática costuma ser encarada pela maioria esmagadora dos estudantes), na saborosa obra que produziu, instigando a imaginação de crianças, jovens e adultos, com textos de ficção, de folclore, de tantas e tantas nuances.

O escritor de nome fictício, tão famoso ao seu tempo, foi um dos primeiros a ter impresso, na sua Carteira de Identidade, o ilustre pseudônimo que assinava na maioria de seus livros, por permissão do presidente Getúlio Vargas. E o dia do seu nascimento - 6 de maio - foi escolhido como o "Dia do Matemático", pela Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro.

Em muito boa hora, pois, prepara-se a homenagem a ele na FLIPORTO-CRIANÇA 2011, que trará de volta o inesquecível MALBA TAHAN, mestre das palavras, dos números e dos gestos, para a alegria das crianças de agora e a saudade dos jovens que fomos um dia!

terça-feira, 15 de junho de 2010

FERNANDO DE NORONHA E A COPA DO MUNDO


O Brasil começa hoje a viver, mais uma vez. o clima de COPA DO MUNDO, todos ligados nos acontecimentos na África do Sul e podendo contar - nesse mundo globalizado - com os avanços tecnológicos que garantem um envolvimento cada vez maior dos torcedores brasileiros, através ds meios de comunicação social.

Certamente, na esperada estréia do Brasil na Copa de 2010, nessa terça-feira, em quase todos os longínquos recantos de um país continental, como o nosso, olhos ansiosos acompanharão a seleção diante da Coréia do Norte, pelo "quase" milagre das transmissões televisivas, radiofônicas e outras mais, diretas, descomplicadas, nítidas, permitindo que a emoção aflore e o grito de gol ecoe pelas terras brasileiras, de todos os cantos...

Mas, nem sempre foi assim. Num passado não tão distante, os que viviam em Fernando de Noronha sofriam um isolamento terrível, que não se limitava a saberem-se ilhados no oceano, a mais de 300Km do continente. Eram brasileiros também, queriam torcer também, mas nada ou muito pouco lhes chegava, em termos de Comunicação.

Naquele distante 1974, próximo à Copa do Mundo, esperançosos, muitos imaginavam ocupar o lugar mais alto do Arquipélago - o Morro do Pico, com 323m de altura - instalando lá uma antena que pudesse captar as imagens dos jogos. O monumento natural parecia ser o lugar ideal para isso. E a "caravana dos decididos" fez a escalada pelos caminhos abertos na rocha e pelos 13 lances de escadas fincadas em seu flanco, até atingir o alto, cada um carregando nas costas o material julgado necessário, para cumprir o intento.

A subida foi dura e arriscada. Saíram às 14h. Chegaram lá em cima, percebendo logo a dificuldade primeira que era o espaço total onde poderiam ficar, pela existência de um farol rotativo de bom tamanho e por serem três pessoas, para executarem o trabalho.

A antena foi montada. Quantos riscos enfrentados... Numa praça de diâmetro reduzido, os três aventureiros viveram o receio de desabarem no abismo. O vento fortíssimo trabalhava contra. A noite caía. O aparelho de TV, levado às costas, foi ligado... As tentativas de sintonizarem os canais do Recife e de Natal foram intrutíferas... E eles tentaram, tentaram, tentaram...

Lá de baixo vinham sinais de luz, de lanternas ou de faróis de carros, lembrando-os das dificuldades da descida no escuro. Até que o sonho de assistir à Copa se esvaísse e a volta ao chão começasse, quando já passava das 22h... Só chegaram ao solo pela madrugada. Foram recebidos como heróis, apesar do fracasso da tentativa. Tinha valido muito como experiência de coragem e determinação do Capitão Segundo Ebling, do Capitão-Paraquedista Carvalho e do Soldado Herculano de Freitas, este considerado "pau=pra-toda-obra" por todos. Mas assistir a Copa, ainda não daquela vez!

Dias depois, esses mesmos corajosos militares conseguiram instalar uma antena rômbica no Morro do Francês (com 195m), obtendo uma imagem péssima mas que permitiu aos residentes - ilhéus e militares do Território Federal então existente - sentirem-se privilegiados por estarem unidos ao resto do País, torcendo como qualquer outro brasileiro, ainda que, muitas vezes, o que viam se assemelhasse mais a "fantasmas" do que ao que hoje conhecemos como imagens de TV

E pensar que, nos dias atuais, isso é tão fácil!!!!

(aventura narrada por um dos protagonistas, o Capital Segundo Ebling, em carta, e publicada como um "caso pitoresco" no meu livro "Fernando de Noronha - Lendas e Fatos Pitorescos", Editora Inojosa, Recife).