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domingo, 17 de junho de 2012

O DESCONHECIMENTO SOBRE FERNANDO DE NORONHA


A história dos homens, em todos os tempos, exerce um enorme fascínio sobre muita gente, pelo que reserva de surpresas, pelas emoções que desperta, pelos segredos que aponta, pela ignorância lamentável da tantos que pode ser preenchida por sabedoria...

No meu caminho em busca das verdades sobre Fernando de Noronha, tenho vivido momentos preciosos de descobertas e, reconhecendo o quanto o foi o arquipélago relegado ao ostracismo, na grande História do Brasil, a vontade é sempre de propagar descobertas, falar sobre elas de todos as formas possíveis, elucidando momentos de beleza, de dor e de glória, ali experimentados.

Gente de muitos lugares vem em busca de dados ou de confirmações, no seu envolvimento pessoal com esse ou aquele tema... E, para mim, contribuir para esclarecer esse passado que me propus a descobrir estabelecem-se laços fortes, que se continuam quando a curiosidade foi satisfeita e aquele que se sentiu amparado na sua sede de saber sentiu-se saciado.

As buscas são as mais diferentes possíveis... Alguém me busca porque pesquisa a presença dos integralistas no arquipélago, no difícil período do Presídio Político oficial (1938/1942): e apresso-me a enviar fotos e informações disponibilizadas pelo “Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha”, proposta onde deposito meu saber noronhense e, em parte, consolidado nos livros que escrevi sobre o tema. Outro viveu na Ilha Grande, como familiar de um preso político ali confinado e, à procura de dados daqueles outros presos que vieram “da ilha”, inicia-se uma troca fantástica de conhecimentos, enriquecendo o conteúdo já tão diversificado do programa. Outro descende de um militar que serviu ali, no “Destacamento Misto da II Guerra Mundial”... E dessa troca surgem imagens expressivas das peças (canhões) levados para lá, que mostram a implantação do “sistema de defesa do século XX”, considerado necessário como armamento bélico mas que danificou os seculares caminhos em pedra, deixando marcas visíveis até hoje...

E assim tem sido... É da soma de cada contribuição, de cada foto doada, de cada “pedaço” dessa história de cinco séculos que um programa de resgate se alimenta. E conta sempre com a boa vontade dos inúmeros doadores, dispostos a abrirem mão de umas poucas heranças recebidas de seus antepassados para explicar um presente cada vez mais necessitado de atenção.

E, ainda neste ano de 2012, parte desse saber, desses “presentes” recebidos de muitos e da persistência na procura e organização desses bens inestimáveis, renascerá – em Fernando de Noronha – o MEMORIAL NORONHENSE / Espaço Cultural Américo Vespúcio - apresentando e disponibilizando - aos ilhéus e a cada visitante – a saga de um espaço insular de natureza exuberante e de uma história riquíssima, com muito ainda a descobrir-se!

Abençoado seja esse tempo que chega!!!

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MORREU SEIXAS DÓRIA, O "RÉU SEM CRIME"


Morreu João de Seixas Dória, o governador deposto em Sergipe e que, durante meses, dividiu um mesmo espaço com Miguel Arraes, em 1964, em Fernando de Noronha... Ele mesmo fala desse tempo de inquietação, no livro “Eu, réu sem crime”, onde recorda o sua prisão e confinamento no arquipélago: “Quando fui preso, os militares me levaram para a sede da 5ª Região Militar, em Salvador (BA). Depois de quatro dias, fui transferido para o Recife e de lá para Fernando de Noronha. Passei alguns dias isolado e depois me transferiram para o quarto onde estava Arraes. Ali convivemos durante quatro meses. Saíamos juntos para tomar banho de sol. Até que fui solto e levado outra vez para Salvador, quando achei que seria morto”,

Na obra deix
ada, em nenhum momento o ex-governador sergipano relata a prática de tortura física, como acontecia nas cadeias do continente, onde pessoas perderam suas vidas batendo de frente com o regime imposto pelos militares. Contribuía para isso o reto proceder do então Governador noronhense, Cel. Jayme Augusto da Costa e Silva.

Este governador, João de Seixas Dória, fazia parte da chamada “bossa-nova” - a UDN - e foi um dos primeiros a se aliar à Frente Parlamentar Nacionalista. Isso lhe valeu ser considerado um “esquerdista” e fez com que fo
sse cassado, preso e remetido para Fernando de Noronha. Confinado em Salvador, à espera de ser mandado para a ilha, escreveu ao Presidente da República, Castelo Branco, pedindo que fosse feita uma devassa no seu governo, para que ficasse provado que lá não havia subversivos nem corruptos... Não foi atendido. Libertado, tempos mais tarde, escreveu seu livro de memórias (publicado no Rio de Janeiro, pela Editora Codecri, em 1980), incluindo nele a carta enviada ao Presidente da República, pedindo para ser julgado de forma justa, e que não teve resposta.

Nas memórias do ex-Governador de Sergipe, está o susto vivido numa noite, em que Miguel Arraes foi levado de repente do quarto onde estava preso junto com ele, com a desculpa de que ele “iria dar um depoimento”. Passaram-se horas e horas e nada dele voltar. Às tantas ouviu-se um estampido e um grito no pátio. Apareceu um Sargento anunciando: - “Aquele tiro, Dr. Seixas, eliminou o ex-governador Arraes”. Abalado com a notícia, sofreu a perda do companheiro, a quem tanto admirava. Não quis comer. Não conseguiu dormir. No dia seguinte, encontrou-se com Miguel Arraes, vivo. Tudo não passara de um ato de terrorismo psicológico. Este fato é contado pelo próprio Seixas Dória, e também por Bento da
Gama Batista, outro preso político na ilha, na obra “1964- agonia em Fernando de Noronha: depoimentos sobre o cárcere da ditadura militar”, editado pela Ed. Universitária da UFPB, em 2000.
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Agora, Seixas Dória se foi, aos 94 anos. Entrevistado por mim, em 2010, em Aracaju, afirmou não sentir mágoa de ninguém, ainda que tivesse sido injustiçado...

O Governador de Pernambuco, Eduardo Campos, neto de Miguel Arraes, o companheiro de cela de Dória, expressou os sentimentos de Pernambuco ao governo de Sergipe, pela perda do importante político. Resta-nos – a todos – sua importante obra, existente no acervo do “Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha”, nos dois volumes doados, um retrospectivo dos tempos de prisão, e outro, reunindo artigos publicados em jornais, em tempos diversos, muitos dos quais também falando em Fernando de Noronha.

E foi o arquipélago onde amargou sua prisão que lhe prestou uma homenagem televisiva, num especial levado ao ar na TV Golfinho, no dia seguinte à sua morte, recordando momentos vividos por ele em sua trajetória política e, em especial, a foto que consta do seu prontuário, feito no dia de sua chegada na ilha: 12 de abril de 1964.

João de Seixas Dória: um nome para não ser esquecido!
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Foto 01: discurso de posse como Governdaor de Sergipe - 1962.
Foto 02: com Ulysses Guimarães, na luta pelas "Diretas Já".
Foto 03: Preso em Fernando de Noronha, em 12 de abril de 1962.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O PASSADO NORONHENSE QUE SE VAI REENCONTRANDO...


Quase todas as pessoas que, por um tempo e por alguma razão, viveram em Fernando de Noronha, carregam no coração uma quase nostalgia daquilo que viveram, das experiências que acumularam, das dificuldades que enfrentaram, no seu tempo noronhense. E o mais curioso, é que o desejo de voltar e de rever aquela terra, vai crescendo no coração de cada um, levando essas pessoas marcadas a programarem uma visita que, quando ocorre, não somente mata as saudades acumuladas como até permite que a ilha seja re-descoberta.

Muitas vezes compartilhei esses momentos...

Em outras ocasiões, esse compartilhamento se deu através dos registros do Sistema Golfinho de Rádio e Televisão...

Quantas ocasiões fortes foram sendo experimentadas.., Vi a menina que nasceu na ilha, na década de 1930, anos e anos depois,ajoelhar-se ao descer do avião, para beijar o que chamou de “solo sagrado da sua terra”... E repetir o gesto ao entrar no quarto onde nascera, numa casa da Vila dos Remédios... E que lindeza imaginar-se um pracinha, que ali viveu o tempo da II Guerra Mundial na Ilha (quando ali funcionou o Destacamento Misto de Guerra, de 1942 a 1945) e que, chegando de volta cinqüenta anos mais tarde, vestir-se com seu fardamento militar da época e, assim paramentado, ir em busca de tudo aquilo que a ilha possui e que não lhe era permitido visitar, em tempos de dificuldades... Vi também uma jovenzinha, da qual existia no acervo uma foto de quando era ela adolescente em Noronha, na década de 1940, encantar-se tempos mais tarde diante das paisagens que trazia guardadas no coração, fazendo despertar em sua alma de artista plástica o desejo de, a

partir dali, somente pintar cenas da sua terra... Vi ainda um venerando senhor, que viveu por lá na década de 1920, também voltar, ficar por algum tempo e escrever seus memórias, num lindo e fecundo trabalho que batizou como “Ilha Mágica”, relatando as ações positivas do pai, então comandante do presídio comum noronhense...

Foram tantas as emoções desses reencontros que foram se sucedendo, nessas buscas do passado daqueles que se ligaram a um espaço especial, concretizadas com a cessão de fotos extraordinárias, que trazem à luz um espaço urbano de rara beleza, com seus prédios coloniais, seus acontecimentos notáveis, como a chegada do avião Jahu (em 1927), o sobrevôo do Zepellin (em 1931); a chegada dos italianos da Italcable (em 1925) para desenvolverem a cabografia transoceânica) e dos franceses (tanto para a mesma atividade com a telegrafia (em 1914) como para apoio aos pioneiras viagens aéreas da Aeropostale precursora da Air France (em 1927); o naufrágio dos três navios gregos (em 1929 e em 1937, todos sepultados no segredo do oceano) e muitos e muitos outros.

É notável constatar-se o encantamento que fica, em cada um - qualquer que tenha sido a razão da ida, da permanência, do desempenho de alguma atividade necessária ou da participação em épocas fortes - como o tempo do Presídio Comum (entre 1737 e 1938), o Presídio Político (de 1938 a 1942), o tempo do Território Federal Militar (entre 1942 e 1986)...

Essas coisas fazem bem ao espírito animam os que hoje têm a responsabilidade de conduzir os destinos de Fernando de Noronha. E, no rastro dessas presenças que acontecem, vai se enriquecendo o acervo que se vem construindo desde a década de 1970, hoje abastecido com mais de cinco mil fotografias, vindas de homens e mulheres, que tiveram o privilégio de, por um tempo de suas vidas – viverem em Fernando de Noronha e que, generosamente, abriram mão dessas imagens e de suas informações pelo bem do lugar onde nasceram ou permaneceram por razões as mais diversas!

Assim se alimentam os sonhos! E assim se restaura a verdade de um lugar tão esquecido, pelo Brasil afora...


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

À PROCURA DO PASSADO NORONHENSE



As evidências construtivas em Fernando de Noronha apontam para um passado de vilas e de fortes erguidos no século XVIII, entrelaçados por caminhos que interligavam cada um dos espaços construídos.

O tempo, o abandono dos homens e o uso por vezes indevido e diverso desses lugares fez com o aspecto urbano fosse sendo descaracterizado e arruinado, chegando-se aos nossos dias com um grande número de informações sepultadas embaixo de escombros ou de construções novas.

Agora, com recursos do PRODETUR 2, está em curso - na ilha - um trabalho arqueológico com vistas a buscar - no chão de alguns espaços - respostas àquilo que os escritos apontam e as fotos antigas revelam, tratando -se paisagisticamente o Arquipélago e evidenciando-se e/ou revitalzando-se o que de significativo for sendo identificado.

O trabalho vem sendo conduzido pelo Prof. Marcos Albuquerque, da UFPE e sua equipe, com o acompanhamento local da arqueóloga Miriam Cazzeta, da ADFN. E, o mais interessante, é saber que tudo vem sendo acompanhado por crianças e jovens, alunos todos da Escola Arquipélago, como aporte da disciplina Educação Patrimonial.

Certamente esses alunos estão vivendo um momento raro, no seu aprendizado e na sua "
noronhensização", descobrindo um passado que não viveram e respeitando tudo aquilo que for sendo interiorizando e/ou expressado das formas mais diversas.

Palmas para todos que disso participam!

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Foto 01 - acervo original: Relatório de Vitório Caneppa, 1938.
Foto 02 - acervo original: arqueóloga Miriam Cazzetta, 2010

domingo, 11 de julho de 2010

FRANCISCO ADELINO - O PADRE DA CACIMBA EM FERNANDO DE NORONHA


Há muito tempo, em Fernando de Noronha, havia uma cacimba de água extraordinária, considerada "a melhor água da ilha", que chegou a ser reservada somente aos doentes, com castigos estabelecidos para aqueles que ousassem usá-la estando sãos. Chamada de CACIMBA DO PADRE, acabou por denominar a praia nas suas imediações, antes chamada "Praia da Quixaba", por ficar na parte baixa da Vila com esse nome, erguida no alto. E, destampada e abandonada, viria a ver sua água estragar-se, sendo hoje imprópria para o consumo.

Mas, por muito tempo, também, poucos tiveram a curiosidade de identificar quem seria esse "padre", imortalizado numa praia hoje famosíssima, pela beleza e por abrigar - a cada ano, os campeonatos internacionais de "surf".

Alguns historiadores, debruçados no passado noronhense (infelizmente não foram muitos mas, os que o fizeram, deixaram um precioso legado), falaram dessa cacimba e desse padre, como Olavo Dantas, Mário Melo e Beatriz Imbiriba. E quem chegou mais perto da correta identificação do "padre", na sua "imortalidade insular", foi mesmo o grande folclorista e historiador Luis da Câmara Cascudo. Foi ele que, na coletânea "Pesquisas e Lembranças do R.G.do Norte", publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, incluiu, no volume IV (de 1989), os dados mais precisos sobre o Padre FRANCISCO ADELINO DE BRITO DANTAS, nascido em Campo Grande, no R. G. do Norte, em 1825, imortalizado em sua terra por ter sido o fundador da povoação de Conceição do Panema, mais tarde transmudada em Vila de Upanema, com capela, correio e núcleo de população densa e também eternizado em Fernando de Noronha, onde foi viver por um tempo, como capelão da Igreja de N.Sª dos Remédios e onde descobriria um veio de água doce, de muito bom sabor, escolhendo então a região para morar, tendo todas as benércias de um lugar tranqulo, uma capela próxima para orações diárias (a "Capela de Conceição da Quixaba", restaurada por ele próprio, com ajuda da mão-de-obra presidiária) e a praia bem próxima.

Padre Francisco Adelino era filho do tenente Félix José Dantas, casado com uma sobrinha, Francisca Xavier de Lira, uma família tradicional nos municípios ao redor de Campo Grande, onde vivia. Era a pessoa mais conhecida da região, pela sua força descomunal, pelas suas habilidades na montaria, pela sabedoria como professor de Latim e Francês. Ordenou-se padre em 23 de maio de 1851. Tinha fixação pela construção de capelas e casas, sendo dele a segunda restauração da Capela da Conceição da Quixaba, logo que chegou a Fernando de Noronha.

Antes disso, em 1870, viajou para o Recife, vindo ensinar na Diocese de Olinda. Verificando a dificuldade de então para se enviar padres para o Arquipélago (na época, era por "sorteio" que se indicavam os padres e essa indicação era considerada uma penitência, um castigo...), solicitou sua indicação ao Bispo Dom Frei Maria Vital de Oliveira... E mudou-se para a ilha, onde ergueu "uma grande casa de taipa", em meio aos bosques arborizados", como sua morada provisória.

Sentindo a dificuldade que teria com a água (raríssima, sempre e somente encontrada nas Cacimbas de Atalaia e da Biboca e na Fonte do Mulungu)), tanto procurou que localizou a fonte de água deliciosa. E ali construiu a "Cacimba do Padre", com 14 metros, cavados pelos presos a seu serviço, ele próprio ajudando, de pá na mão e chapelão na cabeça. Em princípio de 1888 a cacimba ficou pronta. Não foi ele que a "batizou"... Foram os moradores e presidiários que a eternizaram assim, numa "consagração expontânea" e retribuição pelo que fizera.

Anos mais tarde, gravemente doente, o Padre Francisco Adelino pediu dispensa da capelania noronhense e voltou para o Recife, para despedir-se dos amigos e partir para sua terra, Campo Grande, agora re-batizada como Vila do Triunfo onde morreu, em 18 de agosto de 1893.

Um homem extraordinário, que viveu intensamente e foi eternamente ligado a duas das ações simbólicas que desenvolveu: fundou uma povoação e descobriu uma fonte que viria a re-batizar uma região insular. E, mesmo assim, nenhum desses dois feito o tornaram merecedor de nenhuma homenagem, através dos tempos, nem na Vila de Upanema, nem em Fernando de Noronha. Pena!



domingo, 23 de maio de 2010

O JAHU EM NORONHA - CONFUSÃO PELA APARÊNCIA



Pouca gente tomou conhecimento de um fato pitoresco ocorrido em Fernando de Noronha, quando da chegada do monomotor JAHU no Arquipélago, em 1927.

À época, a Ilha já sediava duas companhias para a execução dos serviços de telegrafia, valendo-se da "cabografia transoceânica" feita tanto pelos franceses (do Telegrapho Submarino Francês, desde 1914) e pelos italianos (da Italcable, desde 1925). A chegada da aeronave alvoroçara aquela comunidade insular prisional, sendo-lhes preparada uma homenagem no "Clube Lítero Atlético Quinze de Novembro" e a hospedagem na casa do próprio diretor do Presídio, Manoel Pinheiro de Menezes Filho.

João Ribeiro de Barros - o idealizador da travessia por sobre o Atlântico e seus companheiros: Newton Braga, Vasco Cinquini e João Negrão conheciam ali as primeiras glórias do feito que haveria de imortalizá-los. E, em meio às festas, chega um telegrama, dirigido a João Negrão... E então, um jovem e desavisado estafeta entrega o telegrama ao moreno Newton Braga, que retroca, em tom de brincadeira:

- Este telegrama não é para mim. Eu só só negrão na pele... Quem é Negrão no nome é aquele ali (e aponta para o capitão Negrão. Que grande e indelicada confusão!


Mesmo curiosa, essa historinha mais uma vez nos faz pensar no JAHU e na importância de sua viagem naquele distante 1927... Os quatro tripulantes andaram a cavalo pela Ilha. Distrairam-se com os filhos menores do comandante, que guardaram a lembrança dos heróis de sua infância, como um momento especial em suas vidas. Os funcionários do Presídio igualmente uniram-se às homenagens, sabendo que aquela era apenas a primeira parada de outras que ocorreriam pelo continente brasileiro.

Na história do vitorioso JAHU, mais um capítulo singelo pode ser acrescentado!
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(história contada no meu livro "Fernando de Noronha - Lendas e Fatos Pitorescos", Ed. Inojosa, 1992, a partir do relato do Sr. Glauco Pinheiro de Menezes, filho do então comandante do Presídio de Fernando de Noronha. Foto doada por Genaro Pinheiro de Menezes, seu irmão)
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Foto 01 - O JAHU nas águas de Fernando de Noronha;
Foto 02 - Nexton Braga, personagem da história aqui contata;
Foro 03 - Comandante e tripulantes do Jahu, ao lado do comandante do Presídio e seu filho menor, contador da história ocorrida.

sexta-feira, 26 de março de 2010

ILHAS QUE COMPÕEM O ARQUIPÉLAGO DE FERNANDO DE NORONHA

Vinte e uma ilhas comõem esse Arquipélago tão decantado por todos... Só uma é habitada. As demais, constituem o patrimônio ambiental que merece todas as cautelas e proteção. São elas:

ILHA PRINCIPAL

Ilha de Fernando de Noronha - a maior de todas - possui 17 Km2, com cerca de 10Km de comprimento e 3,5Km de largura máxima. É acidentada, com diversas elevações, destacando-se o morro do Pico, com 323m de altura; o morro do Espinhaço (223m); o morro do Francês (195m); o alto da Bandeira (160m); o morro do Curral (126m); o morro de Sto. Antônio (105m).

Nesta ilha estão os sítios históricos (a Vila dos Remédios, a Vila da Quixaba, as ruínas dos Fortes de São Pedro do Boldró, de Sto. Antonio, de N.Sª da Conceição (entre outros), as vilas residenciais, as Pousadas Domiciliares, o Aeroporto, a Creche, a Escola, o Hospital, a Usina Elétrica Tubarão, a Usina de Tratamento d’água Pirauna, a Usina de Dessalinização, a Usina de Tratamento de Lixo e demais serviços.

Parte dessa ilha é Parque Nacional Marinho desde 1988, havendo uma divisão espacial identificada como Área de Proteção Ambiental – APA, que corresponde a 30% de toda a área e Área do PARNAMAR / FN, com 112,7 Km2, incluindo-se aqui a parte marítima, até a isóbata de 50m de profundidade.

Ao redor dessa ilha maior, outras pequenas ilhas, rochedos e ilhotas compõem o cenário decantado por estudiosos e trovadores.

ILHAS SECUNDÁRIAS:

1. Ilha Rata – O nome é controvertido. Seria “Ilha dos Ratos” mencionada por Thevet, em 1556?

É a segunda em tamanho, com uma área de 6,8Km2, formada por rochas escuras e paredões abruptos. Nela há um farol automático para orientação à navegação. Foi base do experimento comercial que explorou o “guano” (fosfato de cálcio) existente em sua superfície, como resultado do acúmulo de excrementos de aves marinhas “o maior deposito de fosfatos zoógenos do Brasil”. Possui vegetação arbórea, incluindo a burra-leiteira”, a leucena, o pinhão branco, a gameleira (o fícus noronhae), entre outras.

Destacam-se nela o “Pontal da Macaxeira” e a ilha do Lucena, que na maré alta já se configura como quase uma outra ilha. Uma escada de ferro encravada na rocha, em sua face sul, permite o acesso de estudiosos e controle da Marinha.

2. Ilha do Meio – Situa-se entre a Ilha Rata e o rochedo Sela Gineta. Possui base mais estreita do que seu topo, em virtude da arrebentação das ondas na base dos seus paredões. No seu solo, muitos ninhos de aves marítimas, muito apreciadas nos passeios marítimos.

3. Ilha Rasa – Fica próxima ao rochedo Sela Gineta e ao lado da ponta da Air France, da ilha principal. É a mais baixa em altura de todas as ilhas secundárias, e seu topo se caracteriza por forte erosão.

4. Ilha de São José –composta de rochas basálticas, escuras, está ligada à ilha principal por um caminho de seixos negros arredondados, que permitem acesso a ela na maré baixa. No alto foi construído, no século XVIII – o Forte de São Jose do Morro -, o único do sistema defensivo implantado fora da ilha principal.

5. Ilha do Cuscuz – Formada por rocha basáltica, próxima ao morro de São José, tem seu nome originário na semelhança com o “cuscuz nordestino”, alimento muito comum na região.

6. Ilha do Lucena – ponta da ilha Rata que vem se separando, pela ação do mar. Só na maré baixa, percebe-se a ligação com a Ilha Rata da qual se origina.

7. Ilha do Chapéu do Nordeste – pequena formação calcarenítica junto às rochas de acesso ao morro de São José.

8. Ilha Cabeluda –Semelhante ao rochedo Sela Gineta, é também rocha fonolítica, situada na saída da baía Sueste, no “mar-de-fora”.

9. Ilha do Chapéu do Sueste – Assemelha-se às lhas do Meio e Rasa, na sua formação e se parece com um pequeno cogumelo. No seu topo podem ser observados aratus e caranguejos.

10. Ilha dos Ovos – Fica em frente à Enseada do Abreu, entre a baía Sueste e a Praia de Atalaia e é também fonolítica.

11. Ilha Trinta-Réis – pequeno alto fonolítico esbranquiçado pela presença do guano em abundância, fica próximo ao “Chapéu do Sueste”, no mar-de-fora

12. Ilhota da Conceição ou do Morro de Fora – É a mais atingida pela erosão. O grande bloco de pedra assemelha-se, a um cachorro deitado, tendo como “cauda” o Pião, um bloco maciço que é considerado – pelo seu equilíbrio - como prova de não existirem tremores de terra no arquipélago.

13. Rochedo Sela Gineta - Composto por rocha fonolítica, situa-se entre as ilhas Rasa e do Meio, destacando-se pela sua imponência topográfica. Seu nome decorre da semelhança com o dorso de um ginete.

14. Rochedo Dois Irmãos – Duas ilhas muito semelhantes entre si, formadas por rochas vulcânicas de cor escura, sobre as quais existem resíduos de “guano”, que lhes acrescentam tons esbranquiçados de rara beleza. É o mais significativo afloramento de lavas vulcânicas do arquipélago, tendo inspirado uma das famosas lendas de Fernando de Noronha: a LENDA DO PECADO, onde são considerados “os seios de uma mulher gigantesca, petrificados por castigo de haver pecado”.

15. Rochedo da Ilha do Frade – afloramento de rocha fonolítica, assemelha-se a um frade sentado, de capuz, como em posição de oração. Já foi chamada “Ilha dos Sinos”, pelo barulho do mar batendo nas rochas. Em mapas antigos pode-se acompanhar as modificações ocorridas nesse morro, ao longo dos tempos, pela ação dos ventos e das águas.

16. Rochedo próximo à Ilha dos Ovos, no mar-de-fora.

17. Rochedo situado próximo à Ponta das Caracas e à Baía Sueste.

18. Rochedo do Morro do Leão – Rocha fonolítica, está situado no mar-de-fora, junto à Praia do Leão, assemelhando-se a um leão marinho, deitado, vindo daí o seu nome.

19. Rochedo do Morro da Viuvinha - Rocha fonolítica, situado junto ao Rochedo do Leão, na mesma praia, no mar-de-fora, é local de nidificação de aves.

22. Rochedos das Pedras Secas – Três pequenas formações calcareníticas, localizadas no mar-de-fora, distantes do conjunto do arquipélago, na direção da praia de Atalaia e da Enseada da Caeira. Chamados de “escolhos” por Américo Vespúcio, em 1503, na sua carta descritiva da abordagem do arquipélago, feita face ao naufrágio ocorrido nessa proximidade. É o legendário lugar onde começa a história oficial de Fernando de Noronha.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

UM "CENTRO DE MEMÓRIA PRISIONAL" PARA FERNANDO DE NORONHA


Por mais de duzentos anos Fernando de Noronha abrigou um Presídio Comum e Colônia Correcional, recebendo prisioneiros condenados a longas penas, e – eventualmente - presos políticos, dos grandes movimentos ocorridos em todo o Brasil. Até então, era Pernambuco o responsável pela manutenção daquele confinamento, usando o encarcerado como mão-de-obra para todos os trabalhos.

Em duas épocas distintas (1938/1942 e 1964/1965) somente presos políticos foram mandados para lá, época em que a ilha saiu da esfera pernambucana, para ser administrada pelo Governo Federal.

Imagens, narrativas, obras, trazem aos dias atuais as características desse degredo insular, tão pouco conhecido do Brasil. E, num tempo em que o Turismo espreita o Arquipélago, ávido principalmente pela sua beleza natural, é significativo pensar-se em registrar essa memória prisional em um espaço-símbolo, que apresente os dados obtidos no “Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha”, em curso há mais de três décadas.

É preciso que, em tempo, crie-se no Arquipélago o “Centro de Memória Prisional de Fernando de Noronha”, enquanto resta parcialmente de pé um dos três edifícios construídos para esse fim, como um espaço especial de Cultural e de Serviços, de registro e de visitação, esclarecendo, de forma museográfica, o que foi o longo tempo de presídio no meio do oceano, com sua riqueza histórica apresentada de forma digna e oportuna. A isso se chama SALVAGUARDA.

Entende-se por “salvaguarda” a identificação, a proteção, a conservação, a restauração, a reabilitação, a manutenção e a revitalização dos conjuntos históricos ou tradicionais e de seu entorno”. (Recomendação relativa à salvaguarda dos conjuntos históricos e sua função na vida contemporânea – UNESCO, 1976 – item 01, letra c)
Para realizar esse intento, seria conveniente implantar-se um espaço cultural na única edificação restante, dentre as que abrigaram presos, em todos os tempos: a ALDEIA DOS SENTENCIADOS / PRESÍDIO FEMININO, localizada no centro da Vila dos Remédios, antiga “Praça d´Armas” ou "Praça do Commando”. E usar-se o espaço para trazer de volta o passado, em setores a serem ocupados com a museografia pertinente e serviços como auditório, lojas, setores administrativos, dando funcionalidade ao edifício com a sua requalificação.

Um bem sucedido exemplo existe: o presídio de Ushuaia, na Patagônia Argentina, “la ciudad más austral del mundo”, que funcionou de 1902 a 1947 e foi transformado num dos mais impressionantes museus do gênero - o "Museo Maritimo y Presidio de Ushuaia", trazendo de volta a memória daquele tenebroso e gelado cárcere no extremo do mundo.

A antiga “Aldeia dos Sentenciados / Presídio Feminino" é o único exemplar ainda de pé em Fernando de Noronha que registra a existência de um longo presídio de quase três séculos. Uma edificação de caráter monumental, erguida no século XXVIII, com área total de 2.100,00m², parte desta área - de 1.296,40m² - com grande parte das referências arquitetônicas conservadas e um pátio interno de 345,00m². Usada em épocas mais recentes para muitos fins está atualmente bastante danificada. Todos os registros arquitetônicos ainda visíveis estão ameaçados de destruição, podendo causar uma perda irreversível desse bem material e perdendo-se a chance de compreensão da história prisional ali vivida.

Do ponto de vista ambiental, essa é uma área que já causou impacto, pela extensa área de solo impermeabilizado, sendo a proposta de restauração e novo uso do espaço uma ação para salvar-se um bem cultural, sem comprometer novos lotes de solo natural, e oferecer nele oportunidade de ampliação da oferta de Serviços e de Cultura, centrando ali, como atração histórica, o desenrolar de três diferentes formas de aprisionamento insular, a partir do século XVIII, resgatando o passado e dando a funcionalidade de serviços garantidores da sustentabilidade do equipamento.
Um bem cultural tangível - a edificação - corre riscos de desaparecer, em Fernando de Noronha, como já ocorreu com tantos outras erguidas, nos dois primeiros séculos de ocupação definitiva (a partir do século XVIII) e o mais grave, com ele acabarem-se as chances do registro intangível dessa dantesca prisão no oceano, distante de tudo e de todos. Tomara que isso possa acontecer!
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Foto 01 - Presos diante da Aldeia dos Sentenciados
Foto 02 - Aldeia dos Sentenciados
Foto 03 - Presídio de Ushuaia

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

FERNANDO DE NORONHA MAIS UMA VEZ ÁREA DE DEFESA NACIONAL

Está em curso uma grande movimentação naval que implantará, no Brasil, um sistema grandioso. que funcionará como um grande centro de operações. Radares de longo alcance deverão ser instalados no litoral, em pontos diversos, como parte do planejamento estratégico pensado e um deles será implantado em Fernando de Noronha, como o serão também na área do “Cabo Calcanhar” (próximo a Natal/RN, na Bacia de Campos, na Bacia de Santos e na fronteira marítima sul.

Isto é anunciado na Imprensa como o megaempreendimento que integra o planejamento da Estratégia Nacional de Defesa do País e que vem sendo expandido pouco a pouco, iniciado com a montagem de esquadras da Marinha em pontos estratégicos, sendo a primeira dessas no Rio de Janeiro e a segunda prevista para ter como base às águas da Ponta da Espera, na Baía de São Marcos, em São Luís/MA.

Não é de hoje que o Arquipélago noronhense é incluído como ponto importante no rastreamento e defesa do litoral, tendo sido, inclusive, base de apoio na II Guerra Mundial (de 1942 a 1945), período em que contou com um efetivo de três mil brasileiros e cerca de trezentos americanos, esses instalados na ilha, na região entre a Baía Sueste e a Praia de Atalaia.

Anos mais tarde, a corrida espacial novamente fez de Fernando de Noronha um espaço de defesa, no rastreamento de mísseis teleguiados, com doze pontos de observação montados a partir do Cabo Canaveral (nos Estados Unidos) até a ilha de Ascensão, no Brasil, sendo o 11º ponto exatamente o “Posto de Observação” noronhense.
As duas iniciativas duraram pouco tempo, modificaram parte do espaço insular, receberam americanos para trabalhos específicos, nos quais pouquíssimos residentes tiveram a chance de participar e, quando o fizeram, foi sempre em atividades simples de apoio, sem nenhum envolvimento com quaisquer dos planos em curso, para os quais uma enormidade de equipamentos foram trazidos para lá.

Da Base Americana de Guerra resta muito pouco da enorme estrutura construída, composta de barracões para moradia, serviços e lazer. Parte da área veio a ser usada para a vila da Aeronáutica, com o seu Departamento de Proteção ao Vôo. E resta o aeroporto, construído pelos americanos – o 2º que o Arquipélago mereceu receber – hoje ampliado e modernizado.

Do Posto de Observação de Mísseis Teleguiados resta a área do Boldró, com alguns dos seus barracões (chamados de “iglus” pelos noronhenses, pela sua estrutura arredondada), onde já se implantou o Hotel Esmerada (desativados nos nossos dias) e os serviços de geração de energia – Usina Tubarão - e controle do abastecimento d´água.- a Estação de Tratamento Piraúna.

É natural que, pensando-se mais uma vez na Defesa Nacional, aquele pedaço avançado de Brasil no oceano não seja esquecido, embora seja ele hoje lembrado muito mais como um lugar paradisíaco, onde convivem residentes, oriundos das muitas destinações dadas ao espaço insular, com visitantes que chegam de todas as partes, formando um contingente humano grande, diversificado, que exige a manutenção. Vejamos o que o futuro nos reserva...
Fotos: "Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha"

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O "1º GRITO DE REPÚBLICA NO BRASIL E NAS AMÉRICAS


Hoje é feriado em Olinda. Nesta data celebramos o “1º Grito de República” do Brasil e das Américas, dado pelo Sargento-Mor Bernardo Vieira de Melo, no dia 10 de novembro de 1710, no Senado da Câmara de Olinda.

Diz a história que aquele que fora governador do Rio Grande do Norte e vitorioso nas batalhas contra os Quilombos dos Palmares pretendia, com o seu brado, propor a independência de Pernambuco e foi o ato concreto e pioneiro de um movimento revolucionário e agitador contra o rei de Portugal. Com isso, ele se tornou o precursor dos movimentos libertários no Brasil, quase um século antes da Inconfidência Mineira.

O Senado da Câmara era um imponente casarão do século XVII, hoje em ruínas, localizado no sítio histórico olindense, na rua que hoje leva o nome do herói do “10 de novembro”: Rua Bernardo Vieira de Melo. Pela espessura incomum das paredes as “Ruínas do Senado” deixam perceber a importância que tinham, no espaço urbano de então, infelizmente deixado ao abandono pelos homens daquele tempo. E o heróico fato está gravado na “estrela” que lhe serve de indicadora do fato, com os dizeres:

“Aqui, em 10 de novembro de 1710,
Bernardo Vieira de Melo deu o primeiro grito
em favor da fundação da República entre nós”.


E é hoje o dia em que se iniciam as comemorações dos 300 anos do legendário momento histórico, a ser celebrados em 2010. Uma festa cívica reunindo a Câmara de Vereadores, escolas municipais, estaduais e particulares, Escola de Aprendizes Marinheiros, Exército (representado pelo 7º GAC e pelo 14º Batalhão de Artilharia), Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Agremiações Carnavalescas, num grande desfile pelas ruas do Sítio Histórico capitaneado pela Prefeitura de Olinda e pelo Instituto Histórico de Olinda, guardião desta data, tendo promovido reverências há anos, sempre no singelo monumento em ruínas que identifica o feito.
O 1º Grito de República do País aconteceu em Olinda cerca de 70 anos antes da Revolução Francesa e 60 anos antes da independência dos Estados Unidos.

Quem foi Bernardo Vieira de Melo?

Nascido em Jaboatão, em Pernambuco, na segunda metade do século XVII, foi rico proprietário rural, senhor de engenho, cavaleiro da Casa Real, Sargento-Mor da Capitania de Pernambuco, portador do hábito de Cristo e Governador do R. G. do Norte. Casou-se duas vezes, a 1ª com D. Maria de Barros, com quem não teve filhos e a 2ª com Catarina Leitão, com quem teve quatro filhos, um dos quais - André Vieira de Melo – estaria ligado à sua vida atribulada, sendo preso com ele e morrer, pela causa que abraçara.

Serviu a Pernambuco por mais de 25 anos, como Capitão de Infantaria das Ordenanças, Capitão de Cavalaria. Sargento Mor e Tenente Coronal, sempre ligado aos mais marcantes acontecimentos das províncias brasileiras. Foi Vereador da Vila d´Olinda e Juiz e Capitão-Mor da Vila de Igaraçu. Foi nomeado por El-Rei, Dom João V o comandante do Terço dos Palmares.

Após os feitos de 10 de agosto de 1710, Bernardo Vieira de Melo foi preso e enquadrado nos crimes de inconfidência, por querer um Brasil livre. Juntamente com seu filho, André, foi recolhido ao Forte do Brum, no Recife e daí embarcado para Lisboa, em 28 de julho de 1712. Lá, foram os dois recolhidos na Torre de São Julião e, mais tarde, transferidos para a prisão de Limoeiro, onde morreu, em 1713. Seus restos mortais estão depositados no Mosteiro do Carmo, em Lisboa.

Em 1981, o Prefeito Germano Coelho, por Decreto da Prefeitura de Olinda, concedeu a Bernardo Vieira de Melo o título de “Precursor da República no Brasil e nas Américas", título que corresponde àquele dado a Tiradentes, com relação à Inconfidência.

O Hino de Pernambuco, no seu verso de nº 04, registra o fato histórico, no poema que diz:

A República é filha de Olinda
Alva estrela que fulge e não finda
De esplender com seus raios de luz.
“Liberdade”, um teu filho proclama:
Dos escravos, o peito se inflama
Ante o sol dessa terra da Cruz!”

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

IGREJA DA SÉ - CATEDRAL DO ARCEBISPADO DE OLINDA E RECIFE


Segundo uma lendária referência, “numa disputa entre colonizadores e gentios, um risco foi feito no chão e dado o aviso que todo o índio que passasse daquela marca haveria de morrer. E os que passaram caíram mortos. E neste lugar se edificou o suntuoso templo do Salvador, matriz das demais igrejas de Olinda”.

Sabe-se que muito antes que o donatário da Capitania de Pernambuco – Duarte Coelho – chegasse às suas terras, criava-se em Portugal, por alvará régio, a PARÓQUIA DO SALVADOR DO MUNDO, em 05/10/1534, além da designação do seu 1º vigário: Padre Pedro de Figueira.

A construção primitiva iniciou-se em 1540 e foi feita de “taipa de mão e madeira”. Em 1578 um visitador dos Jesuítas descrevia a Sé como “formosa matriz, com três naves, muitas capelas ao redor...” Toda a obra foi concluída em 1621, às expensas do Senado da Câmara. Inclusive sua torre única e capelas. O incêndio ateado pelos holandeses, em 1631, danificariam causariam grande parte do templo, que aparece em telas pintadas por Franz Post, com andaimes, indicando já estar ele sendo recuperado...

Criada a Diocese de Olinda, em 16/11/1676, foi a elevada a Catedral desse Bispado e organizado o seu Corpo Capitular. Dois séculos se passariam para que uma grande restauração fosse autorizada, infelizmente alterando completamente suas linhas arquitetônicas, acrescentando-lhe mais uma torre e dando-lhe uma aparência gótica. Essa imagem perduraria até 1974, quando sua reconstrução aconteceu, voltando às linhas antigas mas deixando ficar a volumetria que surgira com o acréscimo de uma outra torre. Infelizmente, todo o acervo móvel anterior não mais voltou à Sé. Obras de arte em pinturas, azulejos, mosaicos, talhas e móveis do passado fora transferido para outros locais e por lá ficaram.

Em 1983, inaugurava-se a Sé, com o seu aspecto atual, com fachada em estilo renascentista-maneirista, portas ladeadas por colunas jônicas. São três naves no seu interior, separadas por arcos que apresentam colunas toscanas, ambos de cantaria. A Capela-mor é tipicamente Renascentista. Nela estão as cadeiras do Cabido Metropolitano. Ao centro, sob o Cristo Crucificado, a Cadeira Episcopal, ricamente entalhada. Duas capelas colaterais profundas, uma para o Santíssimo Sacramento e outra do Santo Cristo, possuem retábulo em talha dourada e barra de azulejos antigos. Quatro outras capelas laterais possuem passagens inter-comunicantes entre si e estão hoje desprovidas de ornamentos. À direita da nave, suspenso junto a uma coluna está a imagem do Salvador do Mundo, em tamanho natural, vinda da França.

A belíssima Sacristia tem móveis em jacarandá que guardam um tesouro em vestes litúrgicas, No 1º andar, está a Sala do Cabido Metropolitano, com móveis valiosos, balcão em muxarabi e a cama onde dormiu o Papa João Paulo II, em sua visita a Pernambuco. Um alpendre abre a vista para o esplêndido terraço, de onde se descortina uma privilegiada visão do casario, monumentos e do mar de Olinda.

Na parte posterior da edificação está a sala que guarda os restos mortais da maioria dos Bispos e Arcebispos de Olinda e Recife, exceto Dom Vital, sepultado na Basílica da Penha e Dom Helder Camara, cuja tumba, singela, está junto ao altar-mor da Catedral, visitada constantemente por todos que entram na Sé.

A Sé Catedral é um dos maiores patrimônios culturais do Brasil!

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

DEVOÇÕES MARIANAS DE OUTUBRO


Outubro é marcado pelas muitas festas marianas, que celebram Maria sob muitas invocações...

Festejamos MARIA chamando-a NOSSA SENHORA DE NAZARÉ, de FÁTIMA e como a CONCEIÇÃO APARECIDA NO BRASIL. Locais diversos. A mesma Mãe de Deus, homenageada pelas ruas, nos santuários, nas celebrações, na devoção popular, nos terços rezados com grande fervor!

Cada uma dessas festas ganha características diferentes. Sempre nelas está o povo, sedento de amor pela Mãe-Rainha, cantando cantos em seu louvor, saudando-a com orações e fogos de artifício, invocando-a no íntimo do seu coração...

Muitas coisas em comum essas devoções têm.... A Virgem de Nazaré foi encontrada às margens de um igarapé, no Pará. Era uma imagem pequenina, escurecida pelo tempo, que ganhou uma das maiores devoções marianas do mundo, no CÍRIO DE NAZARÉ. A Mãe Aparecida também saiu das águas, para abençoar a jornada de pesca de homens simples. E fez surgir em São Paulo a maior Basílica do mundo dedicada à Maria. E em Fátima, Portugal, a aparição se deu a três crianças, a Virgem sobre uma árvore singela, a azinheira, quando o mundo entrava em guerra e precisava muito de oração.

Nenhuma ostentação nessas aparições... Somente o apelo por rezas que salvassem o mundo. A dureza da vida escrava lembrada na negritude das imagens envelhecidas e escurecidas pelas águas, como a lembrar que não é a cor da pele que importa mas aquilo que se guarda no coração. A aparição em Portugal, em plena 1ª Guerra Mundial, tempo de conflito mundial, conclamando pela PAZ... A “senhora dos mil títulos” tentava mesmo salvar os homens e usava uma linguagem simples, capaz de ser entendida por todos... ,

Qual é a “lição” que nos fica, dessas aparições??? Deus não nos quer dominadores, não nos quer escravizados, nem em guerra contra os outros homens. Não foi aos poderosos que Maria apareceu. Foi a gente simples, trabalhadora, ou a jovens inocentes.

Quem foram as testemunhas das aparições? No Pará, foi a gente simples trabalhadores da roça... Em São Paulo, pescadores em luta pela vida. Em Portugal três crianças de coração puro. Isso são sinais que nos chegam do céu.

Que essas comemorações reunidas numa mesma semana despertem em nós a vontade de sermos bons, verdadeiros, fervorosos, cheios de coragem para defender os oprimidos, merecedores de nossas atenções. A Mãe de Deus é a Mãe que veneramos, que amamos nos convida... Sigamos seus conselhos, e rezemos uns pelos outros, para que o mundo seja mais feliz.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

FERNANDO DE NORONHA E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


Em 1º de setembro de 1939 começou a II Guerra Mundial... Setenta anos se passaram desde aquele trágico dia. Mas as marcas de tudo o que ocorreu em torno dessa decisão fatídica haveriam de ficar pelo mundo afora e também em Fernando de Noronha, o pequeno espaço insular tão distante do continente, e bem no meio do Atlântico de tantas ataques e perdas.

A decisão de fazer o Arquipélago um espaço avançado de guerra começou em 1941, quando por lá existia um Presídio Político, instalado desde 1938. Uma Comissão militar foi incumbida - pelo Governo Federal – de avaliar e definir a melhor forma de ocupação daquele espaço em favor de garantia da segurança nacional. E a conclusão desses estudos foi que “o arquipélago não era lugar indicado para presídio e sim para uma base área naval ou militar".

Sugestão aceita e foi providenciada a retiradade todos os presos políticos, adaptando-se os lugares por eles antes ocupados, como base de guerra. Era um momento histórico e a situação internacional era difícil. Em fevereiro de 1942 o Conselho de Segurança Nacional, elencava razões em favor da ocupação militar do arquipélago, como "o afastamento da costa brasileira" e a "falta de condições para a agricultura, a indústria e o comércio".

Cumprindo a determinação, cerca de três mil “pracinhas” foram enviados para o Arquipélago, com todas as dificuldades da arriscada travessia. Lá, por todos os lados, implantou-se o esquema de acomodação dos soldados e de recebimento e instalação de mais de cinqüenta canhões, de outros equipamentos bélicos e de veículos que viriam a danificar as seculares estradas do sistema viário do século XVIII, entre outros danos visíveis até os nossos dias.

Como acordo de cooperação técnica, instalou-se também a Base Americana de Guerra, na região situada entre a Baía Sueste e a Praia de Atalaia, substituindo-se a vegetação existente por barracões com diversas finalidades (inclusive moradia temporária), alguns dos quais resistem, reutilizados para outros fins. Sem esquecer do perigo que significou a proximidade dessa Base com o Mangue do Sueste, única ocorrência dessa espécie em ilha no Atlântico Sul.

Hoje pela ilha existem algumas marcas desse tempo (1942 / 1945), facilmente identificáveis nos canhões que servem como peças decorativas de alguns espaços urbanos da ilha, bem como nos barracões de construção pré-moldada, que abrigou o contingente enviado.

Esse tempo e essa características únicas foram algo de registro na série de reportagens publicadas pelo Jornal do Commercio, entre 1º e 07 de setembro, série essa comemorativa dos setenta anos da declaração de guerra, que levou o mundo a um conflito mundial desnecessário. E serão igualmente assunto de artigo a ser publicado na Revista da Academia de Artes e Letras de Pernambuco, neste 2009.

O passado não pode ser esquecido. Isso é um compromisso!

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O "PALÁCIO DOS GOVERNADORES" EM OLINDA


Construído no século XVII (em 1660), esse Imponente edifício de arquitetura palaciana, iluminado por lampiões imperiais conserva o piso e as escadarias da nobreza e janelões com varandas de ferro, molduras de pedra e frontão triangular.

Seu nome é a herança histórica das três vezes em que o Brasil foi governado a partir de Pernambuco, por Vice-Governadores, sediados nessa edificação, em Oliinda. Mesmo não mantendo esse uso, o nome Palácio dos Governadores foi eternizado.

Muitas foram as ocupações dadas ao monumento da arquitetura civil... Aí, no século XIX, instalou-se o antigo Paço da Assembléia Constituinte e Legislativa da Confederação do Equador. Abrigou, em 1852, os Cursos Jurídicos, que haviam sido criados no Mosteiro de São Bento, em 1827. Também sediou o Teatro Melpôneme, o Fórum e o Colégio Arquidiocesano de Olinda. Desde o século XX é a sede do Poder Executivo do Município.

Em um dos seus salões térreos está a Galeria Bajado, exposição de obras daquele pintor primitivo, que é uma bela coleção de 20 quadros pintados na década de 1970, retratando o cotidiano e as festas populares de Pernambuco. Outras obras de valor artístico emolduram suas outras paredes antigas...
Em janeiro de 2004 o Palácio dos Governadores foi tombado pela Municipalidade como símbolo máximo da Restauração Pernambucana, movimento que resultou na expulsão dos holandeses do Nordeste brasileiro no século XVII. A iniciativa fez parte das comemorações pelos 350 anos da rendição flamenga, que havia ocupado o Nordeste desde as margens do Rio São Francisco até o atual Estado do Maranhão.

Em 2008, ocorreu a instalação do governo do Estado neste Palácio, em Olinda, em homenagem à história da cidade e do seu povo, iniciativa do Governador Eduardo Campos. Em 2009, quando das comemorações da data magna da cidade – 12 de março – o corte do bolo e as apresentações artísticas ocorreram em frente ao Palácio dos Governadores, como manda a tradição da cidade.

E assim resiste esse monumento, na sua imponente e bela presença nos Sítios Históricos de Olinda, testemunhando a passagem do tempo e servindo como mirante para contemplação da vida da cidade, nos seus desfiles, nos cortejos estudantis, nas bandas de música, nas procissões, nos folguedos carnavalescos, juninos e natalinos. Sua janelas seculares contam tantas histórias...


segunda-feira, 7 de setembro de 2009

MINHA PÁTRIA, MEU AMOR!


A Independência
não é um momento, apenas,
um grito que ecoa,
um ato isolado de bravura...
A Independência
é uma conquista de cada dia,
é uma reafirmação constante e paciente
que se constrói lentamente...
A Independência
é o desamarrar dos laços que, constantemente,
envolvem nossa coragem que vacila
para proclamar
a ventura de ser livre!

(07 de setembro - Independência do Brasil)


terça-feira, 11 de agosto de 2009

CRIAÇÃO DOS CURSOS JURÍDICOS NO BRASIL - OLINDA


Os juristas brasileiros comemoram - neste 11 de agosto - os 182 anos da criação dos Cursos Jurídicos no País. Uma data muito significativa todos e, em especial, para São Paulo e para Olinda.

Até aquele ano, os bacharéis brasileiros estudavam e eram diplomados em Portugal, principalmente na Universidade de Coimbra. Com a instalação dos Cursos Jurídicos no Brasil, nas duas cidades consideradas à época, capazes de recebê-los, toda a formação jurídica passou a ser voltada para as questões brasileiras, direcionadas as características e os problemas do País. Foi um grande momento, do Imperador...
"Dom Pedro Primeiro, por graça de Deus e unânime aclamação dos Povos, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil. Fazemos saber a todos os nossos súditos que a Assembléia Geral Decretou e nós a Lei seguinte:
Art. 1º - Criar-se-ão dois Cursos de Ciências Jurídicas e Sociais, um na cidade de São Paulo e outro na de Olinda, e neles no espaço de cinco anos e em nove Cadeiras, se ensinarão as matérias seguintes..........
Dado no Palácio do Rio de Janeiro aos onze dias do mês de agosto de mil oitocentos e vinte e sete. Sexto da Independência . IMPERADOR PEDRO PRIMEIRO
.” (Lei de 11/08/1827)

Os dois cursos foram implantados em casas religiosas. Em São Paulo, no Convento de São Francisco e, em Olinda, no Mosteiro de São Bento, onde permaneceu até 1854, quando foi transferido para o Recife..

Essa é a razão pela qual, todos os anos, os advogados pernambucanos realizam uma solenidade rememorativa, na Sacristia do Mosteiro de São Bento, precedida de Missa em ação de graças pela importante data celebrada. Afinal, são 182 anos carregando no coração o orgulho de ter merecido, em 1827, a distinção de abrigar os Cursos Jurídicos, juntamente com São Paulo.

Após esses 182 anos de consolidação, sabe-se com certeza que o ensino do Direito no Brasil veio pra ficar, para tornar independente de Portugal todos aqueles vocacionado para a área jurídica, para incluir Olinda dentre as mais promissoras cidades no seu tempo...

E isso é razão de orgulho, sim!