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sexta-feira, 22 de junho de 2012

OS PRIMEIROS CONVENTOS FRANCISCANOS NO BRASIL


Recebi, do escritor Antônio Noberto, sócio do Instituto Histórico e Geográfico do Maranhão, um interessante trabalho sobre o mais antigo convento capuchinho do Brasil – o Convento São Francisco, em São Luiz (le Couvent Saint-François), edificado em 1612 onde hoje se encontra o Seminário Santo Antonio, no Centro da capital maranhense, Quatro capuchinhos acompanhavam Daniel de la Touche naquela viagem: Frei Yves d’Evreux (superior da missão), Frei Claude Abbeville, Frei Ambroise d’Amiens e Frei Arsene de Paris. Mais tarde, em 1613, viriam mais 11 capuchinhos, para viverem nessa casa conventual, construída de taipa de pilão e de pedra “como se fazia na França” tornando-se mais sólida, com o uso posterior de outros materiais construtivos.

Ler sobre isso despertou-me dois desejos:

  • : falar de um outro convento também franciscano, erguido em Olinda, em 1585: o Convento de São Francisco da Ordem dos Frades Menores, o mais antigo do Brasil daquela congregação,
  • : falar sobre Frei Claude d´Abeville, integrante da expedição que se dirigia ao Maranhão mas que, aproximando-se do Brasil, sentiu necessidade de parar em um arquipélago encontrado na sua rota marítima, para se abastecer.

O Convento franciscano de Olinda é muito conhecido pelos devotos de São Francisco e muito visitado pelos turistas que chegam à 1ª capital pernambucana. Erguido numa colina suave, a caminho do Alto da Sé (a Catedral do Arcebispado), no coração do sítio histórico da Cidade Patrimônio Mundial, foi invadido pelos holandeses no século XVII, abandonado à sua própria sorte por muitos anos, reconstruído, ornamentado com azulejos portugueses, preciosas talhas douradas, pinturas que trazem a natureza para enfeitar o interior do conjunto – mostrando folhas e frutos - e figuras de anjos com traços fisionômicos índígenas, entalhados em jacarandá.

Ali nasceu o Mamulengo, expressão criativa de usar-se o boneco feito em mulungu, para a catequese dos índios e escravos, usada pelos franciscanos da primeira hora. Ali vive – desde aquele tempo - a comunidade de Frades Franciscanos Menores, em terras doadas por Dona Maria da Rosa, a 1ª franciscana secular, que fez nascer daquela casa, desde 1577, a mais antiga e Venerável Ordem Terceira Franciscana secular do País, núcleo tradicional de religiosos que chegam até os nossos dias.

Frei Claude d´Abeville, um de dos companheiros de La Touche, conquistador do Maranhão, como seu escrivão na expedição, escreveu uma bela obra: “História da Conquista do Maranhão e Terras Circunvizinhas” e nela incluiu um capítulo “Fernando de Noronha”, no qual descreve o arquipélago com riqueza de expressões e de detalhes, do que seria a esplendorosa natureza que descobriu, ao parar por 15 dias na ilha principal do arquipélago, onde quis deixar plantada a força da fé católica, improvisando uma paliçada sob a qual celebrou a 1ª Missa naquelas paragens. Esse feito é contado também na coleção “História da Igreja no Brasil”, do Pe. Arlindo Rupert, ao referir-se aos frades capuchinhos franceses que andaram pela nossa terra.

Detalhes da uma grande história que se construiu aos poucos, mas que deixou sólidas informações e nos ajudam a resgatar o passado, seja em Pernambuco, seja no Maranhão, com gosto de eternidade!

Imagem: claustro do convento franciscanos de Olinda - o mais antigo do Brasil.


domingo, 17 de junho de 2012

O DESCONHECIMENTO SOBRE FERNANDO DE NORONHA


A história dos homens, em todos os tempos, exerce um enorme fascínio sobre muita gente, pelo que reserva de surpresas, pelas emoções que desperta, pelos segredos que aponta, pela ignorância lamentável da tantos que pode ser preenchida por sabedoria...

No meu caminho em busca das verdades sobre Fernando de Noronha, tenho vivido momentos preciosos de descobertas e, reconhecendo o quanto o foi o arquipélago relegado ao ostracismo, na grande História do Brasil, a vontade é sempre de propagar descobertas, falar sobre elas de todos as formas possíveis, elucidando momentos de beleza, de dor e de glória, ali experimentados.

Gente de muitos lugares vem em busca de dados ou de confirmações, no seu envolvimento pessoal com esse ou aquele tema... E, para mim, contribuir para esclarecer esse passado que me propus a descobrir estabelecem-se laços fortes, que se continuam quando a curiosidade foi satisfeita e aquele que se sentiu amparado na sua sede de saber sentiu-se saciado.

As buscas são as mais diferentes possíveis... Alguém me busca porque pesquisa a presença dos integralistas no arquipélago, no difícil período do Presídio Político oficial (1938/1942): e apresso-me a enviar fotos e informações disponibilizadas pelo “Programa de Resgate Documental sobre Fernando de Noronha”, proposta onde deposito meu saber noronhense e, em parte, consolidado nos livros que escrevi sobre o tema. Outro viveu na Ilha Grande, como familiar de um preso político ali confinado e, à procura de dados daqueles outros presos que vieram “da ilha”, inicia-se uma troca fantástica de conhecimentos, enriquecendo o conteúdo já tão diversificado do programa. Outro descende de um militar que serviu ali, no “Destacamento Misto da II Guerra Mundial”... E dessa troca surgem imagens expressivas das peças (canhões) levados para lá, que mostram a implantação do “sistema de defesa do século XX”, considerado necessário como armamento bélico mas que danificou os seculares caminhos em pedra, deixando marcas visíveis até hoje...

E assim tem sido... É da soma de cada contribuição, de cada foto doada, de cada “pedaço” dessa história de cinco séculos que um programa de resgate se alimenta. E conta sempre com a boa vontade dos inúmeros doadores, dispostos a abrirem mão de umas poucas heranças recebidas de seus antepassados para explicar um presente cada vez mais necessitado de atenção.

E, ainda neste ano de 2012, parte desse saber, desses “presentes” recebidos de muitos e da persistência na procura e organização desses bens inestimáveis, renascerá – em Fernando de Noronha – o MEMORIAL NORONHENSE / Espaço Cultural Américo Vespúcio - apresentando e disponibilizando - aos ilhéus e a cada visitante – a saga de um espaço insular de natureza exuberante e de uma história riquíssima, com muito ainda a descobrir-se!

Abençoado seja esse tempo que chega!!!

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O PASSADO NORONHENSE QUE SE VAI REENCONTRANDO...


Quase todas as pessoas que, por um tempo e por alguma razão, viveram em Fernando de Noronha, carregam no coração uma quase nostalgia daquilo que viveram, das experiências que acumularam, das dificuldades que enfrentaram, no seu tempo noronhense. E o mais curioso, é que o desejo de voltar e de rever aquela terra, vai crescendo no coração de cada um, levando essas pessoas marcadas a programarem uma visita que, quando ocorre, não somente mata as saudades acumuladas como até permite que a ilha seja re-descoberta.

Muitas vezes compartilhei esses momentos...

Em outras ocasiões, esse compartilhamento se deu através dos registros do Sistema Golfinho de Rádio e Televisão...

Quantas ocasiões fortes foram sendo experimentadas.., Vi a menina que nasceu na ilha, na década de 1930, anos e anos depois,ajoelhar-se ao descer do avião, para beijar o que chamou de “solo sagrado da sua terra”... E repetir o gesto ao entrar no quarto onde nascera, numa casa da Vila dos Remédios... E que lindeza imaginar-se um pracinha, que ali viveu o tempo da II Guerra Mundial na Ilha (quando ali funcionou o Destacamento Misto de Guerra, de 1942 a 1945) e que, chegando de volta cinqüenta anos mais tarde, vestir-se com seu fardamento militar da época e, assim paramentado, ir em busca de tudo aquilo que a ilha possui e que não lhe era permitido visitar, em tempos de dificuldades... Vi também uma jovenzinha, da qual existia no acervo uma foto de quando era ela adolescente em Noronha, na década de 1940, encantar-se tempos mais tarde diante das paisagens que trazia guardadas no coração, fazendo despertar em sua alma de artista plástica o desejo de, a

partir dali, somente pintar cenas da sua terra... Vi ainda um venerando senhor, que viveu por lá na década de 1920, também voltar, ficar por algum tempo e escrever seus memórias, num lindo e fecundo trabalho que batizou como “Ilha Mágica”, relatando as ações positivas do pai, então comandante do presídio comum noronhense...

Foram tantas as emoções desses reencontros que foram se sucedendo, nessas buscas do passado daqueles que se ligaram a um espaço especial, concretizadas com a cessão de fotos extraordinárias, que trazem à luz um espaço urbano de rara beleza, com seus prédios coloniais, seus acontecimentos notáveis, como a chegada do avião Jahu (em 1927), o sobrevôo do Zepellin (em 1931); a chegada dos italianos da Italcable (em 1925) para desenvolverem a cabografia transoceânica) e dos franceses (tanto para a mesma atividade com a telegrafia (em 1914) como para apoio aos pioneiras viagens aéreas da Aeropostale precursora da Air France (em 1927); o naufrágio dos três navios gregos (em 1929 e em 1937, todos sepultados no segredo do oceano) e muitos e muitos outros.

É notável constatar-se o encantamento que fica, em cada um - qualquer que tenha sido a razão da ida, da permanência, do desempenho de alguma atividade necessária ou da participação em épocas fortes - como o tempo do Presídio Comum (entre 1737 e 1938), o Presídio Político (de 1938 a 1942), o tempo do Território Federal Militar (entre 1942 e 1986)...

Essas coisas fazem bem ao espírito animam os que hoje têm a responsabilidade de conduzir os destinos de Fernando de Noronha. E, no rastro dessas presenças que acontecem, vai se enriquecendo o acervo que se vem construindo desde a década de 1970, hoje abastecido com mais de cinco mil fotografias, vindas de homens e mulheres, que tiveram o privilégio de, por um tempo de suas vidas – viverem em Fernando de Noronha e que, generosamente, abriram mão dessas imagens e de suas informações pelo bem do lugar onde nasceram ou permaneceram por razões as mais diversas!

Assim se alimentam os sonhos! E assim se restaura a verdade de um lugar tão esquecido, pelo Brasil afora...


terça-feira, 7 de junho de 2011

QUE SAUDADE DO NAVIO FUNCHAL...


O ano era 1990. Experimentava-se ali uma nova forma de de chegar a Fernando de Noronha, navegando no navio Funchal, que vinha de Portugal, com tripulação predominantemente portuguesa, conduzida pelo comandante português Amadeu Albuquerque, para abrir a rota marinha que levaria tantos a percorrerem capitais do Nordeste e, em especial, a desembarcarem no Arquipélago, que já era um sonho dos brasileiros.

Foi a postagem das reminiscências de Laire José Giraud, no site Portogente, neste 07 de junho de 2011, que me animou a também lembrar aquele tempo bom, aquelas idas e vindas ao "paraíso", nesse navio tão aconchegante, que me atiçou a vontade de também falar sobre ele, recentemente avistado por mim no Porto de Lisboa, num passeio de barco que fiz no Rio Tejo.

De repente, diante dos meus olhos desacostumados, parado naquele porto por onde seguia o catamarã onde eu estava, eu vi o meu inesquecível "naviozinho" tão querido, precursor de todas as tentativas para consolidar um roteiro marítimo arriscado, que exigia um desembarque no mar aberto, depois de estar fundeado em frente a Fernando de Noronha, com o sofrido deslocamento em embarcações pequenas até o Porto de Santo Antônio, na Ilha, cheios de passageiros amedrontados mas ansiosos nas suas expectativas.

Olhando o Funchal ali parado, diante de mim, revivi um passado de vinte e um anos de acertos e erros, de tentativas arrojadas, muito mais positivas do que poderia ser esperando desse empreendimento, continuado por tantos outros navios que seguiram: Vasco da Gama, Princess Danae, Pacific, Blue Dream, Rembrandt, Ocean Dream, Orient Queen, Bleu de France... Pensei como aqueles roteiros iniciados em 1990, pelo Funchal, foram sendo consolidados e hoje são um sucesso de público e de recordações positivas.

E há ainda outras lembranças boas... Foi o Funchal que, em 1972, trouxe ao Brasil os restos mortais de Dom Pedro I, no "Sesquicentenário da Independência", aqui comemorada. Foi o Funchal que abriu novamente o mar brasileiro ao turismo, décadas depois, quando resolveu autorizar o aproveitamento de suas extensas costas marítimas... Com ele reinaugurava-se - de forma prazerosa - o lazer pelo oceano, o gosto pelo "glamour" em viagens de navio... Vê-lo em Portugal, à margem do Tejo, foi muito bom, apesar das lágrimas que teimavam em experiorizar a minha emoção!

Que saudade do navio Funchal!
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Foto 01 - O Funchal em frente ao Arquipélago de Fernando de Noronha
Foto 02 - O Funchal atracado no Porto de Natal. Desembarque de Denise Collucci, Marieta Borges e Pedro Lins)

domingo, 1 de maio de 2011

REVERENCIANDO MARIA EM FERNANDO DE NORONHA




Novamente é MAIO em Fernando de Noronha. Como um costume antigo, as reverências à Mãe de Deus brotam de todos os lugares, desde os espaços marianamente erguidos, em tempos distantes, às vilas, às casas, aos espaços noronhenses, num fervor que se faz História também e que tem belas e inesquecíveis lembranças de procissões, de cortejos de crianças vestidas de anjos, de andores enfeitados e conduzidos por mãos piedosas, de recitações de terços no começo das noites, de celebrações em lugares os mais diversos...



Novamente é MAIO, em Fernando de Noronha. É MAIO numa terra sob a proteção de Nossa Senhora, sob a titulação "dos Remédios" (no principal templo da ilha e na capela da Fortaleza dos Remédios), "da Conceição" ou "das Graças" (na pequena e singela Capela da Quixaba, na vila distante) e novamente "da Conceição", como foi na capela do cemitério (hoje, inexistente) ou "do Rosário" (no templo erguido por mãos presidiárias, também arruinada pelo tempo e o descaso dos homens).



Novamente é MAIO, numa ilha essencialmente mariana, que louvou a Mãezinha do Céu desde o século XVIII, e prosseguiu na sua devoção, repetindo orações, cânticos, terços e muita devoção...



Novamente é MAIO em Fernando de Noronha. Neste 1º dia do mês, engalanada, a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios acolheu seus filhos e deixou-se preencher dos sons que trazem o amor e o carinho dos seus filhos, jovens e antigos devotos.



Que ela - a Mãe dos Remédios - nos abençoe a todos!


quinta-feira, 31 de março de 2011

EM FERNANDO DE NORONHA, UM BARCO ESPECIAL




Não é um barco comum. Sua forma estranha, lindíssima, permite que seja comparado - e "batizado" - de barco-nave ou hidronave, pela sua semelhança com uma nave espacial, flutuando sobre o claro mar de Fernando de Noronha.


Chamado de "PROJETO NAVE", a embarcação - de tecnologia russa - tem visor para o exterior e fundo de acrílico, que permite passeios com uma inesperada visão subaquática, tanto à luz do dia como em saídas noturnas, pelos holofotes instalados, desvendando o diversificado mar noronhense, com sua rica fauna marinha, suas evidências de naufrágios e de ocupações ocorridas em outros tempos.


São correntes, âncoras, cascos de navios, por onde se espalham peixes, arraias, tartarugas e tudo o mais desse santuário marinho. Nada deixa de ser visto, pelas suas potentes lentes. E, mesmo tendo à dsposição os segredos do oceano, também presenteia a todos com visões da beleza cênica do arquiélago, chegando bem perto de rochas vulcânicas, do cenário de sonho que tantos conhecem.

O hidronave chegou para deliciar turistas e desvendar mistérios para pesquisadores, sendo um equipamento de estudo do oceano para todos. Palmas para o engenheiro de pesca Leo Veras, o especialista em tubarões que fez de Fernando de Noronha o seu lar e o seu campo de estudo e trabalho!


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

À PROCURA DO PASSADO NORONHENSE



As evidências construtivas em Fernando de Noronha apontam para um passado de vilas e de fortes erguidos no século XVIII, entrelaçados por caminhos que interligavam cada um dos espaços construídos.

O tempo, o abandono dos homens e o uso por vezes indevido e diverso desses lugares fez com o aspecto urbano fosse sendo descaracterizado e arruinado, chegando-se aos nossos dias com um grande número de informações sepultadas embaixo de escombros ou de construções novas.

Agora, com recursos do PRODETUR 2, está em curso - na ilha - um trabalho arqueológico com vistas a buscar - no chão de alguns espaços - respostas àquilo que os escritos apontam e as fotos antigas revelam, tratando -se paisagisticamente o Arquipélago e evidenciando-se e/ou revitalzando-se o que de significativo for sendo identificado.

O trabalho vem sendo conduzido pelo Prof. Marcos Albuquerque, da UFPE e sua equipe, com o acompanhamento local da arqueóloga Miriam Cazzeta, da ADFN. E, o mais interessante, é saber que tudo vem sendo acompanhado por crianças e jovens, alunos todos da Escola Arquipélago, como aporte da disciplina Educação Patrimonial.

Certamente esses alunos estão vivendo um momento raro, no seu aprendizado e na sua "
noronhensização", descobrindo um passado que não viveram e respeitando tudo aquilo que for sendo interiorizando e/ou expressado das formas mais diversas.

Palmas para todos que disso participam!

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Foto 01 - acervo original: Relatório de Vitório Caneppa, 1938.
Foto 02 - acervo original: arqueóloga Miriam Cazzetta, 2010

sábado, 8 de janeiro de 2011

REZAR NO POR-DO-SOL NORONHENSE...



O convite é tentador: participar de uma Missa diante da pequena capelinha de São Pedro dos Pescadores, em Fernando de Noronha, cercado por paisagens deslumbrantes, deixando-se envolver pela magia do por-do-sol...

Quando a celebração começa, turistas desavisados que por ali caminham param, aproximam-se e, quase sempre, deixam-se ficar, sentindo que ali a presença de Deus é clara e definitiva.

Aos poucos, o sol vai se tingindo de cores as mais diversas o mar a tudo rodeia... Os rochedos e ilhotas secundárias tão próximas e, ao mesmo tempo, tão inacessíveis, compõem o cenário que se vai tingindo de escuros, até que o sol desaparece no horizonte... É inesquecível!

Isso é a mais nova maneira de orar-se em Fernando de Noronha. Todos os dias úteis da semana, às 17h, o ritual se repete. E é sempre surpreendente!

A capela - no alto do morro - próxima à região da Air France, visível de muitos lugares (sobretudo nos passeios de barco) é um encanto! Ao seu redor o mar-de-fora (de um lado da ilha) e o mar-de-dentro (no lado contrário)... E a beleza que entra no coração, devagarinho, sobretudo quando esse lugar é o altar onde se pode agradecer a magia de estar ali e reencontrar-se com o Pai...

Fica o convite: venha rezar no final do dia diante da beleza em plenitude!

Fernando de Noronha espera...






sábado, 4 de dezembro de 2010

UMA ANTIGA PARÓDIA PARA FERNANDO DE NORONHA


Faz muito tempo que um poema em louvor a Fernando de Noronha vem sendo aprendido, cantado, lembrado por muitos que visitam o Arquipélago e até mesmo por grande parte dos que aí residem.

No começo, era quase uma brincadeira... Havia uma canção linda, cantada em todo o Brasil: "Pombo Correio", criada por Dodó, Osmar e Moraes Moreira. Havia um costume de usar-se a paródia na escola como um recurso didático. E numa dessas adaptação, para favorecer a memorização de conteúdos pedagógicos, professores em capacitação foram desafiados a criarem textos que pudessem ser cantados e, dessa forma, memorizados de forma prazerosa. Nasceu ali o texto VIAGEM A NORONHA, cantando a beleza e a descoberta do espaço insular, na melodia baiana. Nunca mais deixou de ser apreciada... Acabou por ser eternizada no seu registro, como poema, no 10º Capítulo do livro "FERNANDO DE NORONHA - CINCO SÉCULOS DE HISTÓRIA", lançado em 2007.

E seguiu seu curso, encantando a muitos, repetida por todos que um dia a ouviram, na voz da sua criadora ou por outros tantos presos ao encantamento inicial. Até que, neste novembro de 2010 que se acabou, Moraes Moreira veio ao Pernambuco, na comemoração dos seus 40 anos de carreira... E a chance não poderia ser perdida. Corajosamente, diante do artista, no seu camarim, ele conheceu aquela "letra" diferente, que enaltecia um lugar especial, que ele ainda nem conhece, usando a melodia da canção que gravou há tanto tempo...

O histórico momento está aqui registrado. A autorização dele para que "Viagem a Noronha" continuasse seu curso de despertar emoçóes foi dada. Coração saciado, sai do Teatro Guararapes de coração leve e a certeza do dever cumprido.

Agora posso cantar minha paródia por aí, de espírito desarmado e a alma em festa! Afinal, tudo o que ela quer é falar desse "pedacinho de terra muito verde, aparentemente perdida em lindos tons de azul"!

E eis a letra que tantas alegrias já despertou:

VIAGEM A NORONHA
Música: Dodó / Osmar / Moraes Moreira
Letra: Marieta Borges

01 - Chegue em Noronha e vá, de barco, ver os golfinhos a brincar no meio do mar... Mergulhe fundo nesse azul inesperado; se entregue ao sol que vai, depressa, todo o seu corpo dourar. Suba ligeiro ao Forte dos Remédios para, de lá, ver a beleza ao seu redor: pedras enormes, praias sem fim, a natureza em todo esplendor!

02 - Chegue em Noronha e, em Atalaia, por sobre pedras veja um "frade" a rezar... Arrisque tudo num passeio ao Sueste; junto ao "chapéu", o aratu você bem pode contemplar... Desça ao Sancho, cansado e disposto. Enfrente as ondas altas, lindas do Boldró. Suba ao Francês: veja de lá a terra linda como Deus criou!

03 - Chegue em Noronha e veja, em toda parte, o importante Pico a ilha dominar... Sinta as delícias do Cachorro ou de Italcable. Experimente, lá do Porto, ver o dia clarear. Enfrente as ondas e vá ver a Sapata. Não se espante se avistar um tubarão. Veja a Rata, Sela Gineta, Baía dos Porcos: uma tentação!

04 - Chegue em Noronha e, na Vila dos Remédios, veja a Igreja de história secular... Vá ao Palácio São Miguel e veja, em frente, entre canhões um monumento com a esfera armilar. Vá à Quixaba pra ver a Capelinha e, nas Pousadas, pare para descansar. Num bar da Vila mate sua sede. Vá ao Buraco da Raquel, olhar!

05 - Chegue em Noronha e pegue um cação sem nenhum medo lá na Praia do Leão... Vá caminhando até a Cacimba do Padre: veja de perto as pedras gêmeas: o Morro dos Dois Irmãos. Em noite escura, com um facho pela praia, apanhe agulha até mesmo com a mão e, para sempre, em sua vida, leve Noronha no seu coração!

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A "TUNINHA" DE QUE FALAVAM OS PRESOS EM NORONHA...


Muitos homens, cumprindo pena em Fernando de Noronha, ao tempo em que ali existia apenas um centro prisional para presos comuns (ladrões, assassinos, contrabandistas e moedeiros falsos, condenados a longos degredos), referiam-se ao meio ambiente em que viviam, sem demonstrar entusiasmo com a beleza que os rodeava.


Claro, há de se imaginar que, sem ter liberdade, nada parecia belo àqueles infelizes, obrigados a duros regimes de trabalho diário, fosse na agricultura, nas jornadas de pesca, na criaçao de animais para corte ou leite, no serviço doméstico em casas de seus algozes ou em outra qualquer forma de preenchimento de um tempo tão grande, em condições bastantes adversas.
Extinto em 1938, o Presídio Comum fernandino deixou um rastro de sofrimento, de submissão, de exaustão pelas longas jornadas de trabalho a cada dia, sendo-lhes impossível identificar, na pródiga natureza, aquilo que hoje atrai gente de todos os lugares do mundo.


Perguntados a esses "se, em algum tempo, lembram-se de terem se deliciado vendo GOLFINHOS na ilha", a resposta era sempre "NÃO"... Parecia absurdo essa negativa, quando até os franceses, apoderando-se da ilha no século XVIII (entre 1734 e 1736), chamaram-na "Ille Delphine", numa clara alusão aos golfinhos em suas águas.


Dois desses presos identificados, no entanto, deram uma resposta que pareceu-nos entender porque não era o "golfinho" que eles não viam mas, na sua praticidade de vida, ambos, em momentos diferentes, devolveram a pergunta, para saber "se era das TUNINHAS que estávamos falando, animais que saltavam fora dágua e NÃO SERVIAM PARA COMER, por isso não eram "pescados" e, assim, completamente ignorados.


Essa constatação me ocorre agora, ao descobrir, num comentário da mídia, um texto sobre a TONINHA, uma espécie de golfinho ("Pontoporia blainville"), considerada "prima pobre e esquecida" dos golfinhos rotadores ("Stenella longirostris") que povoam o mar noronhense e são a sua principal atração.


Diz a matéria publicada no www.primeiraediçao.com.br que as tuninhas "correm o risco de extinção" e que habitam, principalmente, a costa do Espírito Santo até a Argentina. Daí perceber-se que os presos noronhenses chamavam incorretamente os nossos encantadores golfinhos, já que não há TONINHAS em águas do Nordeste. Como a toninha não é facilmente observada na natureza, ela está nas águas brasileiras quase que incógnita, sem causar o furor e o deslumbramento dos famosos rotadores noronhenses.


Coisas que a ciência explica e que o homem nem sempre se apropria!

(Foto 1 - toninha / Foto 2 - golfinhos)

terça-feira, 24 de agosto de 2010

LEMBRANDO UMA FIGURA INESQUECÍVEL DE FERNANDO DE NORONHA


Dentre as muitas tentativas de fazer-se reforna agrária no Brasil, algumas tiveram Fernando de Noronha como cenário. Em uma dessas experiências, feita em 1935, foi morar na ilha o agricultor potiguar João Pedro da Silva, logo apelidado de "João Barrão", trabalhador de grandes méritos mas que teve a infelicidade de perder as duas pernas no espaço de um ano, vitimado pela gangrena. Quase que lhe era negado o direito de voltar à ilha, por ser considerado inútil para a tarefa esperada...

Ele insistiu. Acabou por receber a autorização de retorno e, a partir daí, o que se viu foi uma maravilhosa prova de superação, da capacidade do ser humano de fazer aquilo que mais sabia: tratar a terra e dela tirar o seu sustento e da filharada oriunda de vários casamentos e até de adoções que assumiu, pela vida.

E ele que, quando jovem, era insuperável nas danças, namorador, trepador de coqueiro, uma vez infelicitado limitou-se a cuidar da terra, improvisando uma forma incrível de equillibrar-se sobre dois tamboretes, para arar ao redor desse apoio e fazer brotar o milho para a festa junina e tantos produtos, sempre de qualidade superior a qualquer outro, no Arquipélago. E saía, pelas estradas, numa charrete ganha em 1987, para distribuí-los...

Um agricultor tão diferente, querido por todos na ilha, viveu 82 anos de trabalho, de coragem e persistência, deixando um legado de coragem e determinação que permanece.

E ele é lembrado agora por uma razão especial... Um dos filhos que adotou, Renê Jerônimo, largou-se de Fernando de Noronha para o Rio de Janeiro, para participar da Meia Maratona ocorrida em 22 de agosto passado, como representante do Arquipélago onde vive e lá contou sua história aos corredores de muitos lugares do Brasil, orgulhoso daquele pai-adotivo que amou tanto e que deixou-se ficar, na história de vida que construiu acima dos seus próprios limites.

Que saudade de João Barrão nós temos, Renê!!!
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Fotos:
acima: João Barrão, trabalhando na terra, em Fernando de Noronha (acervo ADEFN);
abaixo: Renê, no Rio de Janeiro, em 22//08/10 (foto: Gilmar Farias)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

BURRA-LEITEIRA: A ÁRVORE TRAÇOEIRA DE FERNANDO DE NORONHA


Dizem que ela só existe em Fernando de Noronha. Não é bem assim, claro. Mas famosa no Arquipélago ela é, e como! Suas folhas possuem um veneno terrível, causticante... Basta o homem levar aos olhos as mãos que haviam tocado em sues folhas para que ele fique cego por algum tempo; sua seiva queima, dói.

Ela é a burra-leiteira, uma árvore de quatro a cinco metros de altura, que causa enorme perigo. O simples fato de cortá-la contra o vento faz com que o ar volátil que se desprende queime as pessoas, até por sobre o tecido das roupas. As partes atacadas por essa estranha planta, mesmo nos animais, jamais criam pelos.

Sua madeira não pode ser empregada como lenha combustível, porque a fumaça produzida ataca a vista de quem a usa. Uma gota de sua seiva provoca uma queimadura semelhante à do fogo. Como uma maldição, a burra-leiteira é a peçonha que ataca de muitas formas, ferindo o homem e deixando marcas.

Vários escritores fararam sobre essa singularidade no passado. Pereira da Costa, Olavo Dantas, Frei Caude D´Abeville, foram alguns dos que registraram suas impressões sobre a planta mais característica de Fernando de Noronha. Para D´Abeville ela era "uma árvore muito bela e agradável, de folhas bem verdes, semelhantes ao loureiro" e segue descrevendo os males causados por ela, a ponto de compará-la ao "pecado mortal - na aparência exterior agradável, sorridente, convidativo; quando, porem, tocado, com as mãos das obras e o consentimento de uma vontade determinada, faz perder a graça, que é a vista da alma e provoca imediatamente uma dor viva, pungente remorso".

No período do Presídio Comum, a burra-leiteira foi usada como uma forma de castigo. O preso era obrigado a açoitar a árvore e suportar a seiva que lhe molhava os braços, as mãos, queimando, doendo, abrindo feridas no seu corpo. E foram muitas torturas praticadas assim, numa árvore bela mas fatal.

Por outro lado, uma gota dessa seiva tão forte colocada sobre uma verruga, curava a pessoa que o fizesse, porque a verruga caía, após alguns dias. Contraditório uso, na linha da farmacopéia popular.

Quanto castigos essa traçoeira árvore terá propiciado??? Quantas curas para alguns males, também???

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

11 DE AGOSTO - O PIONEIRISMO DE OLINDA



Foi em Olinda e em São Paulo que surgiram os primeiros cursos superiores do Brasil, com a criação - em 11 de agosto de 1827, pelo Imperador Pedro I - a Faculdade de Direito de Olinda, simultaneamente com a Faculdade de Direito de São Paulo, só então surgindo da nossa terra dois cursos superiores de Ciências Jurídicas e Sociais.

Por essa razão, esta é a data em que se celebra o DIA DO ESTUDANTE, comemorado, a cada ano, nos dois lugares escolhidos para sediarem os cursos de Direito, e ambos instalados, pouco tempo depois, em prédios religiosos, o de Olinda no Mosteiro de São Bento e o de São Paulo no Convento de São Francisco.

Para Olinda acorreram estudantes das províncias do norte e nordeste; para São Paulo, do sul e sudeste, afora alunos de outros países, como Angola e Portugal. Somente jovens com mais de 15 anos podiam ser matriculados, depois de serem aprovados em estudos preparatórios de Francês, Gramática Latina, Filosofia Racional e Moral, e Geometria.
A grade curricular da época era dividida nas seguintes disciplinas, a cada ano:
  • 1º ano - Direito Natural, Público, Análise da Constituição do Império, Direito das Gentes, e Diplomacia;
  • 2º ano - as cadeiras do ano anterior e mais o Direito Eclesiástico;
  • 3º ano - Direito Pátrio Civil e Direito Pátrio Criminal, com a Teoria do Processo Criminal;
  • 4º ano - continuação do Direito Pátrio Civil e o Direito Mercantil e Marítimo;
  • 5º ano - Economia Política e Prática do processo adotado pelas Leis do Império.
A primeira turma de Bacharéis em Ciências Jurídicas de Olinda formou-se em 1832. Em 1852 o curso foi transferido do Mosteiro de São Bento para o Palácio dos Governadores (atual sede da Prefeitura de Olinda). Em 1854 foi trazido para o Recife, passando a chamar-se Faculdade de Direito do Recife, sendo hoje a Faculdade de Direito da Universidade Federal de Pernambuco - UFPE.

Todos os anos, neste dia, solenidades feitas em Olinda comemoram a importante data - 11 de agosto - inclusive com ato na Biblioteca do Mosteiro beneditino, que funcionaou como sala de aula daqueles primeiros estudantes.

Vale lembrar, como curiosidade de Pernambuco, que somente neste ano de 2010, Fernando de Noronha formou seus primeiros ilhéus em um curso superior: o de Pedagogia (em janeiro) e, no final deste ano, formará sua primeira turma de Administração. As deficuldades para que isso pudesse acontecer e os avanços tecnológicos permitiram que, somente 183 anos após o pioneirismo em Pernambuco, a formação em nível universitário fosse possível no Arquipélago.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

EM FAVOR DO PATRIMÔNIO CULTURAL DE FERNANDO DE NORONHA


O propalado "abandono do patrimônio cultural" de Fernando de Noronha ocorreu, efetivamente, a partir de 1938, quando se deu a entrega do Arquipélago à União. Foram mais de cinquenta anos de pouquíssimas intervenções nesse acervo construído, pelos que ali detiveram o poder... Os registros em alguns Relatórios de Governo, encaminhados à Presidência da República, mencionam os monumentos restantes como "de construção obsoleta, por isso mesmo a serem deixados assim, pela difícil reconstrução." Até então, os monumentos civis e religiosos estavam bem conservados, como se constata no "Relatório sobre o Presídio de Fernando de Noronha", de 11/08/1938, apresentado pelo 1º Tenente Victorio Caneppa, quando da entrega da Ilha ao Governo Federal.

Coube novamente a Pernambuco - a partir de 1988 - a tarefa de receber e resgatar esses bens materiais, tentando fa zer retonar cada um às condições mínimas que tinha, quando todos foram entregues. Coube-lhe também desenvolver programas de Educação Ambiental e Educação Patrimonial junto aos jovens, mostrando-lhes - em documentos, iconografia e localização espacial pela Arqueologia - as características das diferentes épocas, gerando a apropriação de um conhecimento que timidamente vem se esboçando.

A criação, em 1998, do MEMORIAL NORONHENSE - Espaço Culural Américo Vespúcio, foi fundamental para essa "descoberta". Um lugar apropriado, reunindo informações, inclusive sobre o "Patrimônio Imaterial", tão importante quanto aquele edificado, aberto ao público local e aos muitos visitantes, foi fundamental para a fixação de acontecimentos, a maioria dos quais até eñtão desconhecidos do mundo... Ali, os documentos escritos identificados, os livros publicados, os registros dos tempos prisionais, os dados resgatados sobre acontecimentos do passado, foram disponibilizados em circuito museográfico simples, para a descoberta e a interpretação dos fatos ocorridos e sua influência e relações com a História do Brasil.

Aos poucos, nesses 22 anos de retomada pernambucana, ações vem sendo pensadas e executadas para minimizar as "feridas abertas" em tudo o que ainda resta. Tendo instuições sérias como parceiras, tanto a nível oficial, como privado, foram pedidos - por exemplo - o tombamento dos dois núcleos históricos remanescentes da definitiva ocupação da ilha em 1737 (Vila dos Remédios e Vila da Quixaba) e dos sistemas defensivos implantados no Arquipélago (as dez fortificações do século XVIII e as evidências das baterias da II Guerra, do século XX).

A Vila dos Remédios, pela sua importância, foi alvo de pequenas e significativas intervenções, com a pintura de suas casas e monumentos e a iluminação especial de algumas construções, melhorando seu aspecto como um todo, incluindo-se igualmente as construçoes pre-moldadas, características da ocupação militar, a partir de 1942. E outras ações caminham para acontecer, com a inclusão de Fernando de Noronha no programa "PAC das Cidades Históricas", pela primeira vez contemplando aquele espaço insular como merecedor de ser assim tratado.

Na antiga Vila da Quixaba restaurou-se a pequenina Capela de N.Sª da Conceição ou das Graças, permitindo que fosse retomada a compreensão sobre o 2º núcleo urbano da ilha, criado ainda no século XVIII. E se vem fazendo o tratamento do entorno dela, identificando os arruinamentos da antiga Vila, o antigo Alojamento para presos e aquilo que a II Guerra precisou erguer nas imediações, como parte da defesa bélica, no século XX.

Para a Fortaleza dos Remédios, único forte tombado pelo IPHAN desde 1961, dentre os dez que compunham "o maior sistema de defesa do século XVIII", foram pensadas obras emergenciais, que o mantenham sólido e apresentável, para estudo de especialistas interessados e a visitação turística constante.

Outras iniciativas estão surgindo, no afã de salvaguardar-se esse patrimônio que se fez com a mão-de-obra prisioneira, que atravessou os tempos e chegou aos dias de agora, como uma herança dos "rastros" deixados por todos aqueles que nos antecederam.

Livros e Teses sobre o Arquipélago vão sendo publicados, apresentando enfoques diferentes de um mesmo lugar, registrando o saber que se constrói a cada dia, pelas pesquisas in loco e a procura nas fontes que vão sendo disponibilizadas.

Ainda bem que isso vem se tornando possível e que os muitos recursos de registro permitem que as informações se multipliquem.... Ainda bem que Fernando de Noronha atrai, cada vez mais, um elenco de pesquisadores, em busca de explicar suas característica sócio-ambientais, seu patrimônio material e imaterial, as vantagens e conseqüências do ecoturismo praticado, entre outros aspectos. E os jovens de agora são privilegiados ao receberem - em aulas práticas e teóricas - esse saber, essas conquistas, essas verdades!

domingo, 11 de julho de 2010

FRANCISCO ADELINO - O PADRE DA CACIMBA EM FERNANDO DE NORONHA


Há muito tempo, em Fernando de Noronha, havia uma cacimba de água extraordinária, considerada "a melhor água da ilha", que chegou a ser reservada somente aos doentes, com castigos estabelecidos para aqueles que ousassem usá-la estando sãos. Chamada de CACIMBA DO PADRE, acabou por denominar a praia nas suas imediações, antes chamada "Praia da Quixaba", por ficar na parte baixa da Vila com esse nome, erguida no alto. E, destampada e abandonada, viria a ver sua água estragar-se, sendo hoje imprópria para o consumo.

Mas, por muito tempo, também, poucos tiveram a curiosidade de identificar quem seria esse "padre", imortalizado numa praia hoje famosíssima, pela beleza e por abrigar - a cada ano, os campeonatos internacionais de "surf".

Alguns historiadores, debruçados no passado noronhense (infelizmente não foram muitos mas, os que o fizeram, deixaram um precioso legado), falaram dessa cacimba e desse padre, como Olavo Dantas, Mário Melo e Beatriz Imbiriba. E quem chegou mais perto da correta identificação do "padre", na sua "imortalidade insular", foi mesmo o grande folclorista e historiador Luis da Câmara Cascudo. Foi ele que, na coletânea "Pesquisas e Lembranças do R.G.do Norte", publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, incluiu, no volume IV (de 1989), os dados mais precisos sobre o Padre FRANCISCO ADELINO DE BRITO DANTAS, nascido em Campo Grande, no R. G. do Norte, em 1825, imortalizado em sua terra por ter sido o fundador da povoação de Conceição do Panema, mais tarde transmudada em Vila de Upanema, com capela, correio e núcleo de população densa e também eternizado em Fernando de Noronha, onde foi viver por um tempo, como capelão da Igreja de N.Sª dos Remédios e onde descobriria um veio de água doce, de muito bom sabor, escolhendo então a região para morar, tendo todas as benércias de um lugar tranqulo, uma capela próxima para orações diárias (a "Capela de Conceição da Quixaba", restaurada por ele próprio, com ajuda da mão-de-obra presidiária) e a praia bem próxima.

Padre Francisco Adelino era filho do tenente Félix José Dantas, casado com uma sobrinha, Francisca Xavier de Lira, uma família tradicional nos municípios ao redor de Campo Grande, onde vivia. Era a pessoa mais conhecida da região, pela sua força descomunal, pelas suas habilidades na montaria, pela sabedoria como professor de Latim e Francês. Ordenou-se padre em 23 de maio de 1851. Tinha fixação pela construção de capelas e casas, sendo dele a segunda restauração da Capela da Conceição da Quixaba, logo que chegou a Fernando de Noronha.

Antes disso, em 1870, viajou para o Recife, vindo ensinar na Diocese de Olinda. Verificando a dificuldade de então para se enviar padres para o Arquipélago (na época, era por "sorteio" que se indicavam os padres e essa indicação era considerada uma penitência, um castigo...), solicitou sua indicação ao Bispo Dom Frei Maria Vital de Oliveira... E mudou-se para a ilha, onde ergueu "uma grande casa de taipa", em meio aos bosques arborizados", como sua morada provisória.

Sentindo a dificuldade que teria com a água (raríssima, sempre e somente encontrada nas Cacimbas de Atalaia e da Biboca e na Fonte do Mulungu)), tanto procurou que localizou a fonte de água deliciosa. E ali construiu a "Cacimba do Padre", com 14 metros, cavados pelos presos a seu serviço, ele próprio ajudando, de pá na mão e chapelão na cabeça. Em princípio de 1888 a cacimba ficou pronta. Não foi ele que a "batizou"... Foram os moradores e presidiários que a eternizaram assim, numa "consagração expontânea" e retribuição pelo que fizera.

Anos mais tarde, gravemente doente, o Padre Francisco Adelino pediu dispensa da capelania noronhense e voltou para o Recife, para despedir-se dos amigos e partir para sua terra, Campo Grande, agora re-batizada como Vila do Triunfo onde morreu, em 18 de agosto de 1893.

Um homem extraordinário, que viveu intensamente e foi eternamente ligado a duas das ações simbólicas que desenvolveu: fundou uma povoação e descobriu uma fonte que viria a re-batizar uma região insular. E, mesmo assim, nenhum desses dois feito o tornaram merecedor de nenhuma homenagem, através dos tempos, nem na Vila de Upanema, nem em Fernando de Noronha. Pena!



quarta-feira, 23 de junho de 2010

HÁ UM PADRE-RESIDENTE EM FERNANDO DE NORONHA... ALELUIA!


A comunidade católica de Fernando de Noronha vive hoje o especial momento de contar, dentro os "residentes" na ilha, com um padre, depois de mais de 50 anos sem que isso fosse uma realidade. Não que os ilhéus estivessem completamente desassistidos de apoio religioso: isso, não! Mas as idas e vindas de sacerdotes eram constantes, na falta de alguém que se disponibilizasse para morar ali, interagindo com a comunidade e com as muitas denominações cristãs hoje existentes...

No período do Território Federal, eram os capelães militares que cumpriam essa tarefa. Padres-capelães do Exército e, depois, da Aeronáutica, prestavam assistência aos fiéis, sobretudo realizando as celebrações especiais ao longo do ano, como a "Festa da Padroeira", em agosto; a "Festa de São Pedro", com Procissão Marítima, em junho; a "Primeira Eucaristia" das crianças, no final do ano; as celebrações do tempo do Natal, etc, etc, etc...

Com a reintegração do Arquipélago a Pernambuco, em 1988, a tarefa de enviar padres voltou a ser exercida pela Arquidiocese de Olinda e Recife, à qual foi a ilha ligada ainda no século XVIII. Não havendo nenhum presbítero que quisesse residir por lá, foi mantido o envio esporádico de pastores católicos e, de vez em quando, algum desses assumia a função de "Delegado Eclesiástico" noronhense, velando pela orientação dos católicos, indo e vindo sempre, os designando companheiros de sacerdócio para isso.

Nos últmos anos,essa terefa tinha sido dada ao Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, Dom Edvaldo Amaral que, além de prestar serviços como dirigente, empenhou-se em captar recursos do exterior (Adveniat, da Alemanha) que permitissem restaurar-se uma ruína, para ter a ilha uma nova "Casa Paroquial", uma vez que a primitiva casa erguida para esse isso passou a ser usada para outros fins, desde o século XIX.

Essa iniciativa do zeloso Arcebispo garante agora um local definitivo para o padre-residente que chega, Glenio Guimarães Braga Costa, proveniente da Diocese da Paraíba, empossado solenemente no dia 18 de junho passado, pelo Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, osb. A cerimônia oficial se deu na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, principal templo católico da ilha, tombada pelo IPHAN em 1981.

Padre Glenio é teólogo, filósifo e dentista. Atuou por 17 anos na Arquidiocese da Paraíba e foi ele próprio que solicitou sua trasnferência para trabalhar em Fernando de Noronha, pertencente à Arquidiocese de Olinda e Recife/ Pernambuco. Os entendimentos entre os dois Arcebispos (de Olinda e Recife e da Paraíba) consolidaram o desejo do padre de cumprir uma missão na ilha, para o qual ele se sentia chamado.

Que Deus o ajude a ser o padre-residente que todos esperavam!


domingo, 20 de junho de 2010

AINDA A COPA DO MUNDO EM FERNANDO DE NORONHA

Em artigo anterior, registrei aqui as duras tentativas de fazer-se com que os que viviam em Fernando de Noronha, em 1974, pudessem assistir os jogos da Copa do Mundo. Baseada na narrativa de um dos protagonistas, o Cap. Segundo Ebling, descrevi a loucura que foi a subida ao Morro do Pico e, depois, ao Morro do Francês, para arriscar formas de recepção daqueles momentos tão especiais.
No rastro dessa narrativa, recebo uma outra valiosa contribuição, dessa vez feita por uma então jovem moradora da Ilha, a respeito de uma tentativa semelhante, na Copa do Mundo de 1970.
Era governador do então Território Federal o Cel. Jayne Augusto da Costa e Silva. Por iniciativa da RADIOBRÁS - que começava a tentar comunicar o Arquipélago com o mundo lá fora - uma antena foi colocada no Morro do Francês, para que os jogos do Brasil pudessem ser asssitidos, com imagens geradas de Guadalajara, no México, onde os brasileiros jogariam e esses jogos fossem assistidos pela população civil e militar ali residente.
Quase todos os moradores subiram aquele morro de 195m de altura, em cada jogo, colocando-se ali do jeito que lhes fosse possível, diante da "telinha" em preto-e-branco, cantando a célebre canção "90 milhões em ação, pra frente, Brasil, do meu coração..." O aparelho usado era da marca ABC, que tinha como slogam "A voz de ouro ABC". As aspas da antena tinham sido revestidas de palha-de-aço (Bom Bril), como uma forma de ajuda... E nada aconteceu. Só barulho, barulho, barulho... Muitos rádios foram ligados para que fosse possível, pelo menos, ouvirem-se as transmissões dos jogos.
E, de tentativa em tentativa, todos vibraram quando conseguiram "ouvir" e "ver", mesmo com todos os defeitos da transmissão, um único gol em toda a Copa, marcado por Jairzinho, no jogo Brasil X Inglaterra!
Nas reminiscências de Marilde Costa está o desabafo orgulhoso de uma brasileira, distante do continente, ávida por ver Pelé, Rivelino, Jarizinho, Tostão e tantos outros, que formavam o que ela chama até hoje de "A SELEÇÃO", considerando inesquecível o momento de ver a primeira imagem de televisão em sua vida!
São pedaços de um passado que hoje nos parecem tão distantes...
(Texto baseado na narrativa de Marilde Martins da Costa,
hoje Conselheira Distrital de Fernando de Noronha)