sábado, 26 de junho de 2010

SÃO JOÃO - UM TEMPO PARA DESCOBERTAS...


A proposta era modesta: reunir a família em algum lugar simples, longe do borburinho da "cidade grande", experimentando os sabores da gastronomia junina, e apreciando a ingenuidade das brincadeiras, ao som de sons tradicionais do cancioneiro desse período de lirismo e beleza...

E a opção deste 2010 foi Carpina, na zona da Mata, em Pernambuco, abrigados todos numa tranquila casa de religiosas - o Juvenato Maria Auxiliadora - agora transformado em Pousada e casa de referência para treinamentos. Simples e acolhedora hospedagem, com comida caseira e umas poucas regalias de conforto e qualidade.

E haja brincadeiras ao redor da fogueira que queimou, noite a dentro... E haja a necessidade de tapar os ouvidos para as bombas que estouravam e iluminavam o céu, enfeitado também pela lua quase perfeita que emoldurava o cenário escolhido...

Crianças e idosos dançaram com alegria. Gulosos, comeram talvez além da conta. Combinaram-se passeios na manhã do "dia do santo", o querido São João, aquele do qual se celebra a data do nascimento e não da morte, por ter sido ele agraciado antes de nascer, no encontro entre sua mãe e a Virgem Maria.

No fim da noite, ainda se pode descobrir a participaçao do povo nas atrações trazidas aos palcos múltiplos, no Largo de Eventos da cidade. Ao amanhecer, foi a vez de rever (para alguns) e conhecer (para outros) a vizinha Tracunhaém, onde o barro vira arte e dignifica a pacata cidade, tornando-a conhecida pelo talento dos filhos-artistas que gerou.

E como coroamento, a torcida de todos pela seleção brasileira, em clima de Copa e de rivalidade entre Brasil e Portugal, momento de união de todos os que, naquele momento, optaram por estarem ali, deliciando-se com os mimos gastronômicos oferecidos e ansiedade nos 90 minutos de angustiante espera...

Valeu, sim, a escolha! Valeu ver as crianças, recebendo - para carregarem ao futuro - costumes que lhes foram mostrados!

E viva São João, é claro, porque ele é a razão disso tudo acontecer!

quarta-feira, 23 de junho de 2010

HÁ UM PADRE-RESIDENTE EM FERNANDO DE NORONHA... ALELUIA!


A comunidade católica de Fernando de Noronha vive hoje o especial momento de contar, dentro os "residentes" na ilha, com um padre, depois de mais de 50 anos sem que isso fosse uma realidade. Não que os ilhéus estivessem completamente desassistidos de apoio religioso: isso, não! Mas as idas e vindas de sacerdotes eram constantes, na falta de alguém que se disponibilizasse para morar ali, interagindo com a comunidade e com as muitas denominações cristãs hoje existentes...

No período do Território Federal, eram os capelães militares que cumpriam essa tarefa. Padres-capelães do Exército e, depois, da Aeronáutica, prestavam assistência aos fiéis, sobretudo realizando as celebrações especiais ao longo do ano, como a "Festa da Padroeira", em agosto; a "Festa de São Pedro", com Procissão Marítima, em junho; a "Primeira Eucaristia" das crianças, no final do ano; as celebrações do tempo do Natal, etc, etc, etc...

Com a reintegração do Arquipélago a Pernambuco, em 1988, a tarefa de enviar padres voltou a ser exercida pela Arquidiocese de Olinda e Recife, à qual foi a ilha ligada ainda no século XVIII. Não havendo nenhum presbítero que quisesse residir por lá, foi mantido o envio esporádico de pastores católicos e, de vez em quando, algum desses assumia a função de "Delegado Eclesiástico" noronhense, velando pela orientação dos católicos, indo e vindo sempre, os designando companheiros de sacerdócio para isso.

Nos últmos anos,essa terefa tinha sido dada ao Arcebispo Emérito de Olinda e Recife, Dom Edvaldo Amaral que, além de prestar serviços como dirigente, empenhou-se em captar recursos do exterior (Adveniat, da Alemanha) que permitissem restaurar-se uma ruína, para ter a ilha uma nova "Casa Paroquial", uma vez que a primitiva casa erguida para esse isso passou a ser usada para outros fins, desde o século XIX.

Essa iniciativa do zeloso Arcebispo garante agora um local definitivo para o padre-residente que chega, Glenio Guimarães Braga Costa, proveniente da Diocese da Paraíba, empossado solenemente no dia 18 de junho passado, pelo Arcebispo Metropolitano de Olinda e Recife, Dom Fernando Saburido, osb. A cerimônia oficial se deu na Igreja de Nossa Senhora dos Remédios, principal templo católico da ilha, tombada pelo IPHAN em 1981.

Padre Glenio é teólogo, filósifo e dentista. Atuou por 17 anos na Arquidiocese da Paraíba e foi ele próprio que solicitou sua trasnferência para trabalhar em Fernando de Noronha, pertencente à Arquidiocese de Olinda e Recife/ Pernambuco. Os entendimentos entre os dois Arcebispos (de Olinda e Recife e da Paraíba) consolidaram o desejo do padre de cumprir uma missão na ilha, para o qual ele se sentia chamado.

Que Deus o ajude a ser o padre-residente que todos esperavam!


domingo, 20 de junho de 2010

AINDA A COPA DO MUNDO EM FERNANDO DE NORONHA

Em artigo anterior, registrei aqui as duras tentativas de fazer-se com que os que viviam em Fernando de Noronha, em 1974, pudessem assistir os jogos da Copa do Mundo. Baseada na narrativa de um dos protagonistas, o Cap. Segundo Ebling, descrevi a loucura que foi a subida ao Morro do Pico e, depois, ao Morro do Francês, para arriscar formas de recepção daqueles momentos tão especiais.
No rastro dessa narrativa, recebo uma outra valiosa contribuição, dessa vez feita por uma então jovem moradora da Ilha, a respeito de uma tentativa semelhante, na Copa do Mundo de 1970.
Era governador do então Território Federal o Cel. Jayne Augusto da Costa e Silva. Por iniciativa da RADIOBRÁS - que começava a tentar comunicar o Arquipélago com o mundo lá fora - uma antena foi colocada no Morro do Francês, para que os jogos do Brasil pudessem ser asssitidos, com imagens geradas de Guadalajara, no México, onde os brasileiros jogariam e esses jogos fossem assistidos pela população civil e militar ali residente.
Quase todos os moradores subiram aquele morro de 195m de altura, em cada jogo, colocando-se ali do jeito que lhes fosse possível, diante da "telinha" em preto-e-branco, cantando a célebre canção "90 milhões em ação, pra frente, Brasil, do meu coração..." O aparelho usado era da marca ABC, que tinha como slogam "A voz de ouro ABC". As aspas da antena tinham sido revestidas de palha-de-aço (Bom Bril), como uma forma de ajuda... E nada aconteceu. Só barulho, barulho, barulho... Muitos rádios foram ligados para que fosse possível, pelo menos, ouvirem-se as transmissões dos jogos.
E, de tentativa em tentativa, todos vibraram quando conseguiram "ouvir" e "ver", mesmo com todos os defeitos da transmissão, um único gol em toda a Copa, marcado por Jairzinho, no jogo Brasil X Inglaterra!
Nas reminiscências de Marilde Costa está o desabafo orgulhoso de uma brasileira, distante do continente, ávida por ver Pelé, Rivelino, Jarizinho, Tostão e tantos outros, que formavam o que ela chama até hoje de "A SELEÇÃO", considerando inesquecível o momento de ver a primeira imagem de televisão em sua vida!
São pedaços de um passado que hoje nos parecem tão distantes...
(Texto baseado na narrativa de Marilde Martins da Costa,
hoje Conselheira Distrital de Fernando de Noronha)

terça-feira, 15 de junho de 2010

FERNANDO DE NORONHA E A COPA DO MUNDO


O Brasil começa hoje a viver, mais uma vez. o clima de COPA DO MUNDO, todos ligados nos acontecimentos na África do Sul e podendo contar - nesse mundo globalizado - com os avanços tecnológicos que garantem um envolvimento cada vez maior dos torcedores brasileiros, através ds meios de comunicação social.

Certamente, na esperada estréia do Brasil na Copa de 2010, nessa terça-feira, em quase todos os longínquos recantos de um país continental, como o nosso, olhos ansiosos acompanharão a seleção diante da Coréia do Norte, pelo "quase" milagre das transmissões televisivas, radiofônicas e outras mais, diretas, descomplicadas, nítidas, permitindo que a emoção aflore e o grito de gol ecoe pelas terras brasileiras, de todos os cantos...

Mas, nem sempre foi assim. Num passado não tão distante, os que viviam em Fernando de Noronha sofriam um isolamento terrível, que não se limitava a saberem-se ilhados no oceano, a mais de 300Km do continente. Eram brasileiros também, queriam torcer também, mas nada ou muito pouco lhes chegava, em termos de Comunicação.

Naquele distante 1974, próximo à Copa do Mundo, esperançosos, muitos imaginavam ocupar o lugar mais alto do Arquipélago - o Morro do Pico, com 323m de altura - instalando lá uma antena que pudesse captar as imagens dos jogos. O monumento natural parecia ser o lugar ideal para isso. E a "caravana dos decididos" fez a escalada pelos caminhos abertos na rocha e pelos 13 lances de escadas fincadas em seu flanco, até atingir o alto, cada um carregando nas costas o material julgado necessário, para cumprir o intento.

A subida foi dura e arriscada. Saíram às 14h. Chegaram lá em cima, percebendo logo a dificuldade primeira que era o espaço total onde poderiam ficar, pela existência de um farol rotativo de bom tamanho e por serem três pessoas, para executarem o trabalho.

A antena foi montada. Quantos riscos enfrentados... Numa praça de diâmetro reduzido, os três aventureiros viveram o receio de desabarem no abismo. O vento fortíssimo trabalhava contra. A noite caía. O aparelho de TV, levado às costas, foi ligado... As tentativas de sintonizarem os canais do Recife e de Natal foram intrutíferas... E eles tentaram, tentaram, tentaram...

Lá de baixo vinham sinais de luz, de lanternas ou de faróis de carros, lembrando-os das dificuldades da descida no escuro. Até que o sonho de assistir à Copa se esvaísse e a volta ao chão começasse, quando já passava das 22h... Só chegaram ao solo pela madrugada. Foram recebidos como heróis, apesar do fracasso da tentativa. Tinha valido muito como experiência de coragem e determinação do Capitão Segundo Ebling, do Capitão-Paraquedista Carvalho e do Soldado Herculano de Freitas, este considerado "pau=pra-toda-obra" por todos. Mas assistir a Copa, ainda não daquela vez!

Dias depois, esses mesmos corajosos militares conseguiram instalar uma antena rômbica no Morro do Francês (com 195m), obtendo uma imagem péssima mas que permitiu aos residentes - ilhéus e militares do Território Federal então existente - sentirem-se privilegiados por estarem unidos ao resto do País, torcendo como qualquer outro brasileiro, ainda que, muitas vezes, o que viam se assemelhasse mais a "fantasmas" do que ao que hoje conhecemos como imagens de TV

E pensar que, nos dias atuais, isso é tão fácil!!!!

(aventura narrada por um dos protagonistas, o Capital Segundo Ebling, em carta, e publicada como um "caso pitoresco" no meu livro "Fernando de Noronha - Lendas e Fatos Pitorescos", Editora Inojosa, Recife).

domingo, 13 de junho de 2010

SANTO ANTÔNIO - UM SANTO DO POV0


Chamava-se Fernando de Bulhões. Nasceu em Lisboa, em 1195, numa família rica. Entrou para o Convento dos Agostianinos aos 15 anos. Ordenou-se padre em Coimbra. Em 1220 ingressou na Ordem Franciscana Menor, abraçando a pobreza. Trocou seu nome para Antônio. Foi missionário no Marrocos e, doente, foi mandado para a Itália, onde lecionou Teologia em várias Universidades, indicado pelo próprio São Francisco de Assis, que o admirava muito. Era um orador sacro prodigioso, de forte apelo popular. Fazia milagres espantosos. Possuía o dom da "bi-locação" (estar em dois lugares ao mesmo tempo). Sua fama de santidade era muito grande.

Com saúde precária, recolheu-se ao Convento Franciscano de Arcélia, localidade próxima a Pádua, na Itália, onde viria a morrer, em 13 de junho de 1231, com apenas 36 anos. Foi canonizado 11 meses após a sua morte, pelo Papa Gregório IX, em 13 de maio de 1232.

Foi reconhecido como "Doutor da Igreja", pela sua sabedoria. Sua veneração espalhou-se pelo mundo, principalmente em Portugal e no Brasil, como herança da colonização portuguesa. É considerado o "padroeiro dos pobres e dos casamenteiros" e invocado também para "encontrar objetos perdidos". Sobre seu túmulo, em Pádua, foi construída a basílica a ele dedicada, que guarda, como um tesouro especial, sua língua incorruptível, com a qual tanto pregou em vida.

O encantamento do povo simples por Santo Antônio é comovente! Não é o "Doutor da Igreja" que veneram... É o "Antonino" (uma forma tão carinhosa de chamá-lo em nosso idioma); é o "santo casamenteiro" que ajuda moças desencantadas a encontrar o seu par; é o protetor dos pobres, que dava aos famintos o pão do convento em que vivia e que, por isso, fez nascer o costume da distribuição do "pão de Santo Antônio" em cada 13 de junho.

É ele o santo invocado nas "simpatias" feitas em seu nome, nas festas juninas, nascidas do imaginário da gente simples e que fazem parte das superstiçoes características do povo brasileiro, quase uma "brincadeira", nascida da necessidade de ter-se fórmula para tudo, até para buscar o impossível.

O que justificaria uma pessoa "enterrar uma faca, à meia-noite, numa bananeira", na esperança de que o líquido que escorresse da planta viesse a formar a letra do nome do futuro companheiro? Os escrever os nomes dos pretendentes a marido em vários papéis, sendo um deles deixado em branco (para o caso de ficar a jovem vitalina) e colocá-los à meia-noite do dia 12 de junho em um prato com água, deixando-o por toda a madrugada no "sereno", para encontrar, no dia seguinte (dia de Santo Antônio) um dos papíes abertos, indicando qual seria o escolhido?

Como entender que, cheio de fé e de esperança, uma moça adquira uma imagem do santo, faça a ele o pedido de arranjar marido e, para "comprometê-lo", roube-lhe o Menino Jesus, dizendo que só o devolve quando conseguir namorado? Ou ainda virar o santo "de cabeça para baixo", até o pedido ser atendido? E "amarrar uma aliança num fio e segurá-la sobre um copo com água", para saber quantos anos faltam para se casar, perguntando isso ao santo à meia-noite, na véspera do seu dia, crendo que o número das batidas da aliança no copo seria essa resposta?

São costumes repetidos ao longo dos tempos. São rituais, simpatias, que fazem a delícia da crendice popular, sabendo-se que, nesses casos, o que importa não é o que se faz mas a fé de cada um, naquilo que almeça. É o patrimônio imaterial que se continua...

Santo Antônio é representado sempre com seu hábito de frade franciscano, com símbolos especiais, que sinalizam sua fé e sua vida. Há uma Bíblia na sua mão esquerda simbolizando sua fé nos Evangelhos) e, sobre ela, está o Menino Jesus. Na mão direita ele sustenta a Cruz e um Lírio (símbolo da sua pureza).

O jeito é relembrar, nesse 13 de junho, o querido santinho português/ italiano, repetindo os versos antigos, com os quais sua glória foi sempre lembrada: "Glorioso Santo Antônio, grande amigo do Senhor/ escutai nosso pedido/ sede nosso intercessor!" Ou as palavras do"Responsório de Santo Antônio": "Se milagres tu procuras pede logo a Santo Antônio/ fogem dele as desventuras, o erro, os males e o demônio..."


sábado, 12 de junho de 2010

SANTO ANTONIO - O SANTO MAIS POPULAR DO BRASL

O SANTO

Chamavam-no "Fernando".
Era belo, rico, meigo e bom.
O mundo não o seduzia...
Sonhava com a paz dos claustros, com o infinito,
com a doação integral de sua vida de homem.

Chamaram-no "Fernando".
Lisboa o viu crescer em sabedoria,
sentindo nele o apelo maior
que haveria de afastá-lo
dos apegos terrenos
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Chamaram-no "Antônio".
Quedaram-se todos ante sua extraordinária voz;
amaram-no na singeleza do que fazia
e na luminosa verdade dos seus olhos de frade,
espalhando o bem que não se acaba.

Chamaram-no "o santo".
Outras cidades o viram passar.
Multidões foram por ele atraídas.
Pádua o viu florescer e eternizar-se,
guardando seu corpo como se seu filho fora.
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Chamam-no, até hoje, "de Lisboa", "de Pádua",
o Antonino da herança portuguesa,
o santo tão querido de tantos italianos,
aquele que o mundo todo venera e ama
como um filho sem pátria exclusiva,
mas pertencente à humanidade toda!
......................

(Publicado no meu livro "Cantando o amor o ano inteiro" - Paulinas, 1986)

sábado, 5 de junho de 2010

FALANDO DE CIGANOS EM FERNANDO DE NORONHA

O Jornal do Commercio publicou, no dia 26/05/2010, o Caderno Especial "NO RASTRO DOS CIGANOS", resultado de uma interessante pesquisa sobre esse povo nômade, tão perseguido através dos tempos e que conserva tradições milenares, numa evidente transmissão, de pais para filhos, de uma Cultura fascinante e incompreendida por muitos. De parabéns estão as jornalistas Verônica Falcão e Cleide Alves, pela riqueza nos dados abordados e a fotógrafa Hélia Scheppa, pelas imagens reveladoras!

A lamentar apenas, que tenha ficado fora dessa retrospectiva, a histórica presença dos ciganos do Brasil em Fernando de Noronha, a partir de 1739, assinalada por diversos historiadores, embora as comprovações desse envio sejam quase inexistentes. O que se sabe é que cronistas mencionaram o fato, como Pereira da Costa, sem explicitar detalhes e outros tantos também o repetiram, acreditando-se que a deportação dos ciganos para a Ilha, naquele momento, seria uma tentativa preconceituosa de "limpar-se a raça" , isolando-se esses homens e mulheres por suas atitudes consideradas clandestinas e marginais.

No imaginário popular, esse momento histórico talvez tenha sido a razão do surgimento da lenda "O cajueiro da cigana", mencionada poor vários historiadores e poetizada no final do século XIX pelo poeta paraense, ex-seminarista, revolucionário e ardente apologista do protestantismo, Gustavo Adolpho Cardoso Pinto, que foi cumprir pena em Fernando de Noronha, aos 19 anos de idade, por assassinato e roubo e, lá estando, criou un lindo poema (entre tantos) com essa lenda, publicado num livro de versos seus intitulado "Risos e Lágrimas".

Suas rimas têm sabor agreste e resgatam essa e outras velhas histórias, perpetuadas pela oralidade e criam uma aura de verdade naquilo que tanto incomodou os estudiosos do tema "Noronha", em todos os tempos. Os versos são mencionados por Gaston Penalva, Pereira da Costa, Mario Melo e Beatriz Imbiriba, todos autores de obras sobre a Ilha.

Diz ele:"Conservaram as tradições/ Que esbelta e linda Cigana/ Tinha, aqui, pobre cabana/ Nestas ermas solidões;/ Certo a buena dicha lia/ Porem disto não vivia. Mas certos amores vendeu.../ Era bela o mais quem sabe?/ Dizer a mim não me cabe,/ Depois dizem que morreu,/ E por memória deixou/ Esta árvore que plantou/ Desde então, nesta paragem/ Junto deste cajueiro,/ Aparece ao caminheiro/ Um eqüestre personagem;/ Fronte altiva e marcial,/ Vestido de general./ Quantas vezes, diz a gente/ Que um vulto - rara beleza,/ Pelas formas - com certeza,/ Mulher - alma padecente,/ Se vê perdida na estrfada,/ Como quem vai de jornada./ Não se sabe o que julgar/ Dessa estranha aparição..."

O poema segue, contando as agruras daquela vida degredada, no dizer de um poeta sem liberdade, que fez das histórais do lugar onde vivia o "mote" daquilo que escrevia. E essa é uma informação preciosa, quando se está resgatando o saber e as vivências do povo cigano.

Também a Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, em 1995, ao levar Fernando de Noronha para a Sapucaý, fez de "O Cajueireo da Cigana" um belo carro alegórico, carnavalizando a lenda, seguido de todo uma ala de ciganos, homens e mulheres, que mostravam ao mundo - naquele momento - a histórica presença cigana na Ilha, informação que muitos poucos sabiam (e não sabem, até hoje). Pena que o Caderno Especial de agora deixou de fora dados tão curiosos...

Mas isso vem a calhar, no momento em que o Ministério da Cultura - MinC, por meio da Secretaria da Identidade e da Diversidade Cultural (SID), instituiu o Prêmio Culturas Ciganas 2010, que teve suas inscrições abertas no dia 16 de abril e que serão encerradas no dia 12 de julho próximo. A competição quer premiar 30 iniciativas que envolvam trabalhos individuais ou coletivos, que fortaleçam as expressões culturais ciganas e contribuam para a continuidade e a manutenção das identidades dos diferentes clãs e povos presentes no Brasil, que somam mais de meio milhões de pessoas.

Bela iniciativa federal! Tão oportuna quanto essa, do Jornal do Commercio, de fazer a publicação desse admirável "NO RASTRO DOS CIGANOS", com que fomos todos nós - os leitores - premiados nesse final de maio, mesmo que a saga noronhense tenha ficado de fora.
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Ilustração: protótipo de um dos carros alegóricos da Mangueira, em 1995, criação do carnavalesco Ilvamar Magalhães.

terça-feira, 25 de maio de 2010

PALAVRAS DO PROFETA

PAUSA PARA UMA PRECE

Pai Celeste,
Como as flores nos falam de Vosso poder e de Vossa bondade!...
Vivem tão pouco, mas realizam o Vosso sonho de beleza
e transmitem, em perfume, Vossa mensagem de amor!

Como temos que aprender com as flores!
Elas aceitam a vida breve, brevíssima,
mas aproveitam ao Máximo o tempo de vida que de Vós receberam...

Fazei-nos entender que o importante não é viver muito ou viver pouco
- é viver bem!
É realizar, em plenitude, os vossos planos de amor!
Aceitai nossa matrícula na escola dos flores!...

(Dom Helder Camara, 11/ 02/ 1977)


domingo, 23 de maio de 2010

O JAHU EM NORONHA - CONFUSÃO PELA APARÊNCIA



Pouca gente tomou conhecimento de um fato pitoresco ocorrido em Fernando de Noronha, quando da chegada do monomotor JAHU no Arquipélago, em 1927.

À época, a Ilha já sediava duas companhias para a execução dos serviços de telegrafia, valendo-se da "cabografia transoceânica" feita tanto pelos franceses (do Telegrapho Submarino Francês, desde 1914) e pelos italianos (da Italcable, desde 1925). A chegada da aeronave alvoroçara aquela comunidade insular prisional, sendo-lhes preparada uma homenagem no "Clube Lítero Atlético Quinze de Novembro" e a hospedagem na casa do próprio diretor do Presídio, Manoel Pinheiro de Menezes Filho.

João Ribeiro de Barros - o idealizador da travessia por sobre o Atlântico e seus companheiros: Newton Braga, Vasco Cinquini e João Negrão conheciam ali as primeiras glórias do feito que haveria de imortalizá-los. E, em meio às festas, chega um telegrama, dirigido a João Negrão... E então, um jovem e desavisado estafeta entrega o telegrama ao moreno Newton Braga, que retroca, em tom de brincadeira:

- Este telegrama não é para mim. Eu só só negrão na pele... Quem é Negrão no nome é aquele ali (e aponta para o capitão Negrão. Que grande e indelicada confusão!


Mesmo curiosa, essa historinha mais uma vez nos faz pensar no JAHU e na importância de sua viagem naquele distante 1927... Os quatro tripulantes andaram a cavalo pela Ilha. Distrairam-se com os filhos menores do comandante, que guardaram a lembrança dos heróis de sua infância, como um momento especial em suas vidas. Os funcionários do Presídio igualmente uniram-se às homenagens, sabendo que aquela era apenas a primeira parada de outras que ocorreriam pelo continente brasileiro.

Na história do vitorioso JAHU, mais um capítulo singelo pode ser acrescentado!
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(história contada no meu livro "Fernando de Noronha - Lendas e Fatos Pitorescos", Ed. Inojosa, 1992, a partir do relato do Sr. Glauco Pinheiro de Menezes, filho do então comandante do Presídio de Fernando de Noronha. Foto doada por Genaro Pinheiro de Menezes, seu irmão)
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Foto 01 - O JAHU nas águas de Fernando de Noronha;
Foto 02 - Nexton Braga, personagem da história aqui contata;
Foro 03 - Comandante e tripulantes do Jahu, ao lado do comandante do Presídio e seu filho menor, contador da história ocorrida.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

MÊS DE MAIO - MÊS DE MARIA

Maria, Mãe da bondade,
dá unidade a todos nós.
Ampara nossa fraqueza,
dá-nos certeza de ir pro céu.
Teu santo colo embalou,
quando Menino, o Salvador
e, nesse regaço santo
nos entregamos, cheios de amor!

Maria, a humanidade
precisa tanto viver em paz...
Estende o divino manto
com que aqueceste o Redentor.
Os homens, no mundo frio,
se esquecem sempre de dizer "sim".
Ensina-nos, Mãe querida:
não vale a pena viver assim!

Maria, o mundo inteiro
louva o teu nome com devoção.
És Mãe igualmente santa
dos tantos filhos que a Cruz gerou.
Aponta-nos o rumo certo,
enche de fé nossa solidão,
dizendo o "sim" com alegria,
torna-nos dignos da salvação!
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(publicado no meu livro "Cantando o Amor o Ano Inteiro" - Paulinas, São Paulo, 1983)

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A DEVOÇÃO MARIANA EM FERNANDO DE NORONHA


Uma terra dedicada, desde muito tempo, à Mãe de Deus, deveria mesmo louvá-la de muitas formas e por razões diversas... Em Fernando de Noronha foi assim, desde que se deu a definitiva ocupação por Pernambuco, a mando de Portugal.

Século XVIII. 1737. O homem chegava para ficar, para construir, para se abrigar e desenvolver ali um núcleo habitacional que gravitava em torno de uma dolorosa destinação: ser um Presídio para presos comuns, todos condenados a longas penas. Como uma forma de consolo, talvez, começava-se a fazer o primeiro e mais importante templo católico - a Igreja de Nossa Senhora dos Remédios - iniciada naquele ano de chegada e conluída em 1772, data que aparece em sua fachada.

A dedicação à Virgem dos Remédios foi a devoção primeira, que viria a titular também o principal forte construído na Ilha - a Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios - e toda a vila - Vila dos Remédios. E, logo depois, em 1768, a Senhora dos Remédios era tomada como Padroeira do Presício.

Uma imagem portuguesa foi entronizada no altar e viria a desaparecer em 1817, quando todos os bens da Ilha foram retirados dela em conseqüência da Revolução Pernambucana de 1817, que remeteu para lá um grupo com o fim de "trazer para o continente braços fortes para a luta" (os prisioneiros), desmantelar tudo o que encontrasse erguido ou desenvolvido e "retirar da Igreja todos os trastes de valor, tratando com decência esses bens"...

Mais tarde, findo o movimento político, uma outra imagem seria trazida para ilha, abençoada em 1880, conforme a "Ordem do dia" de 22 de julho de 1880. Tembém essa desapareceria ao ser enviada para o Recife, na década de 1930, para ser restaurada. E a terceira imagem, que esteve no altar a partir da década de 1940, não correspondia à iconografia dessa devoção.

Hoje a Virgem dos Remédios é venerada com duas belas imagens, corretamente feitas em madeira e resina, pelo santeiro de Olinda Elias Sultanun, em tamanhos diferentes, para servirem às Procissões (a imagem menor) e reinar no altar-mor do templo (a imagem maior).

Mas não foi apenas no principal templo que o culto a Maria se deu... A Capela da Fortaleza dos Remédios, hoje semi-destruída, também foi dedicada à Senhora dos Remédios; a Capela do Cemitério, erguida em 1843 e hoje não mais existente, foi dedicada a Nossa Senhora da Conceição e a Capela da Vila da Quixaba (ou da Sambaquixaba), segundo núcleo habitacional historicamente erguido, foi também colocada sob a invocação da Virgem da Conceição, titulação substituída por "Nossa Senhora das Graças", quando a imagem primitiva de Nossa Senhora da Conceição desapareceu e uma outra, mais singela, da Virgem das Graças, foi deixada sobre o altar único, por ser grande demais para ocupar o nicho apropriado desse altar.

No século XIX, os prisioneiros quiseram ter também o seu lugar de culto. E, para isso, ergueram a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Sentenciados, construída na metade daquele século, hoje inesxistente, da qual só se conhece a visão por relatos antigos de sua existência e por ter sido registrada numa obra de arte em óleo sobre madeira, do pintor francês Eugene Laissaily, à época, hoje pertencente ao acervo do Instituto Ricardo Brennand, no Recife.

E, pelos séculos que se seguiram, as festas marianas foram sempre comemoradas, ano a ano, nas solenidades do Mês de Maio e nas Procissões e Festas nas datas de cada uma das venerações escolhidas, com crianças vestidas de anjos, coroando Nossa Senhora, acompanhando procissões fervorosas, recitando o Terço nas residências e nos templos, dedicando a Maria as mais tradicionais e belas canções, em louvor à Mãe de Deus e nossa.

Neste Maio, uma vez mais se faz reverência a essa Mãe, que abençoa seus filhos, ilhados e fervorosamente à espera das bênçãos que lhes alimente a vida!
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Foto 01 - imagem desaparecida na década de 1930.
Foto 02 - imagem atual, com a iconografia correta.
Foto 03 - celebração mariana em 1992.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

MÃE, CONTRADIÇÃO DE AMOR!


Diante da dor que lhe estremece o seio
ou rindo feliz, brincando com o filho;
cansada, ao fim de um dia farto e cheio,
saciada de amor ao receber carinho;

correndo, ansiosa, para fazer tudo
ou descansada, acalentando o berço;
esperando, calada, tendo o filho mudo;
secando lágrimas, vendo o recomeço...

Contraditória mulher, de gestos tão diversos;
ousada fada, em muitas se desdobra
e segue em frente, distribuindo amor...

Não há como esquecer a vida ao lado dela
e receber afeto é tudo que a mãe cobra,
neste doar-se pleno, que nunca se acabou...

Pois foi para ser assim
que a fez o Criador!
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(Homenagem a todas as MÃES, em 2010)




sábado, 1 de maio de 2010

CURIOSIDADES DO MÊS DE MAIO EM OLINDA


É MAIO, uma vez mais, um mês tradicionalmente dedicado a MARIA e celebrado de muitas maneiras e em quase todas os lugares deste imenso Brasil...

Em Olinda, celebrar o mês mariano foi sempre um costume familiar e comunitário, com recitação do Terço nas casas e/ou nas igrejas e capelas, dentre as muitas erguidas para louvar a Mãe de Deus, desde o início da ocupação da "mimosa e sempre leal Vila d´Olinda"...

Durante séculos esses espaços de culto se localizavam apenas na área hoje definida como "sítios históricos", caracterizada pelas sete colinas suaves, onde se fez a colonização a partir de 1535, com a chegada do donatário Duarte Coelho. Foi a empolgação desse fidalgo português, diante da "linda situação para se construir uma vila" que fez Olinda surgir, do "sonho dos homens"... Mais tarde, já no final do século XIX, deu-se a corrida para as praias, para os "banhos de mar", por razões terapêuticas, estendendo-se a ocupação para os demais espaços do "Termo da Vila", povoando outros lugares e neles erguendo outras igrejas e capelas, a maioria delas dedicadas à "Senhora dos Mil Títulos".

E assim surgiram a Igreja de N.Sª do Monte (a destinação citada no Foral de Olinda, de 1537); a Igreja de N.Sª da Misericórdia, de 1540; a Igreja de N.Sª do Carmo (a mais antiga das Américas), de 1580; a Igreja de N.Sª das Neves, do Convento Franciscano (o mais antigo da Ordem, no Brasil), de 1585; a Igreja de N.Sª da Graça, do antigo Real Colégio dos Jesuítas, depois, Seminário de Olinda, de 1551; a Igreja de N.Sª da Conceição do Recolhimento das Dorotéas; a Igreja de N.Sª do Rosário dos Homens Pretos (a primeira erguida em terras brasileiras por escravos, que nela deixaram lindos arcos e painéis com pinturas em motivos africanos, somente aflorados na restauração de 1996; a Igreja de N.Sª do Amparo; a Igreja/Paróquia de N.Sª de Guadalupe dos Homens Pardos (a primeira no Brasil dedicada à Virgem de Guadalupe, padroeira da América Latina); a Igreja de N.Sª da Boa Hora; a Capela de N.Sª de Lourdes (do abrigo de idosos); a Capela da Rosa Mística... Todas essas somente no pequeno espaço onde a vila começou e até hoje razão de orgulho para os olindenses.

Depois, vieram outros tempos, surgiram outros bairros, na trilha da ocupação em direção ao mar e perto dele... Mais tarde, buscaram-se os morros, nas cercanias da cidade que crescia, mantendo-se o costume de cultuar Nossa Senhora nas igrejas e capelas, como a Igreja/Paróquia de N.Sª de Fátima, no Bairro Novo; a Igreja/Paróquia de N.Sª da Ajuda, no bairro de Peixinhos e as Capelas de N.Sª da Conceição e N.Sª do Perpétuo Socorro, a ela pertencentes; a Capela de N.Sª Conceição, no bairro de Casa Caiada; a Igreja/Paróquia de N.Sª da Assunção de Maria, no bairro de Rio Doce; as Capelas de N.Sª da Bondade, N.Sª do Perpétuo Socorro, N.Sª Auxiliadora e N.Sª do Carmo, pertencentes à Paróquia de Salgadinho e distribuídas em bairros populares; o Santuário da Mãe Rainha, no bairro de Ouro Preto, no morro onde existiu outrora o "Santuário de N.Sª da Encarnação, dos Recoletos de São Felipe Neri"... Todas em Olinda... Todas nas "muitas Olindas"... Isso sem contar os altares com magníficas imagens de Maria, sob tantas invocações, em igrejas com titulações não marianas (algumas com nomes bem estranhos, como N.Sª do Boi, do Convento de Santa Tereza, na entrada da cidade),

Afora esses espaços, especialmente erguidos para o culto regular, semanal, também se fez um nicho mariano, singelo e bonito, engastado junto ao Mercado da Ribeira, na área de restrita preservação, único não dedicado ao tema da Paixão de Cristo, dentre os que marcam os caminhos das Semanas Santas, a cada ano, e sim voltado para reverenciar a Mãe de Deus, e que só se abre para a reza do terço nas noites de Maio, com devotos sentados em assentos improvisados, diante daquele belo e pequeno altar, junto à rua e aos que por ela transitam.

Olinda e suas curiosidades. Olinda e seus mistérios, suas tradições fortes, enraizadas na alma do seu povo, contagiando a tantos quantos se apercebem dessas singularidades e por ela se encantam! Salve!

sábado, 24 de abril de 2010

LEMBRANDO O MAESTRO FERNANDO BORGES


Foi num dia 24 de abril que ele nasceu... Aos seis anos, pediria ao padrinho que lhe trouxesse um VIOLINO como presente, em resposta à pergunta: "- O que você quer que lhe traga da viagem a São Paulo???"

E o aprendizado começou pouco tempo depois. Aos 10 anos já dominava também outros instrumentos de corda e de percussão, além de cantar muito bem e arriscar-se em harmonias para canto em conjunto, com suas irmãs, que o idolatravam...

Adolescente, iniciou-se na noite, escondendo a pouca idade mas revelando o enorme talento, que o levaria a tornar-se o mais conhecido dos maestros de Pernambuco, a seu tempo, levando a sua "Banda Tropical" por esse mundo afora, em inesquecíveis excursões, sempre vitoriosas...

No palco, ele era soberano! Conduzia como ninguém as noitadas de festas, fossem elas simples bailes de formatura ou solenidades oficiais. O músico de gestos fidalgos e um humor insuperável tratava cada compromisso como se fosse o primeiro e o mais importante de sua careira de artista. E todos o veneravam também por isso.

Certamente muitos se recordam dos muitos "Dançando na Rua" que experimentaram, no Recife Antigo, com o maestro sacudindo e emocionando o público que acorria, encantado... Ou fizeram parte da multidão diante do gigantesco palco armado na Ponte Duarte Coelho, no "Esperando o Galo" que antecedia e entretia o povo, enquanto o Galo da Madrugada não chegava à Av, Guararapes, no coração da cidade... Ou ainda entregou-se freneticamente aos ritmos de muitos povos, acompanhando as "Viagens Musicais" sempre pedidas, em todas as festas, com imortais canções de tantos e tantos países...

Ah!, FERNANDO BORGES, como você foi importante para Pernambuco! Como sua criatividade e talento imprimiram uma marca que fez tantos seguidores, entre Orquestras e Bandas que foram surgindo, no rastro por você iniciado!

Uma homenagem merecida foi-lhe concedida pela Prefeitura do Recife, em 1999, dando à Escola Municipal de Frevo o seu nome, para eternizá-lo na titulação: "ESCOLA MUNICIPAL DE FREVO MAESTRO FERNANDO BORGES', diante da enorme contribuição dada por você ao Carnaval do seu Estado. E lá está ela, na Avenida Norte, formando passistas, que traduzem com o corpo a reverência ao seu Patrono, indo buscar - lá longe, nos Estados Unidos, um reconhecimento merecido, na classificação em 2º lugar, em um concurso de Dança Popular.

MAESTRO FERNANDO BORGES, você foi luz, para a Arte no lugar onde nasceu. E hoje, quando você completaria 72 anos, reverenciamos sua memária, com os olhos molhados de emoção e o coração cheio de saudade!

sexta-feira, 23 de abril de 2010

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM FERNANDO DE NORONHA


Para que se possa compreender a história da Educação em Fernando de Noronha, é preciso considerar as características diferenciais daquele local, em relação ao que acontece no continente. Isolado no Atlântico, o Arquipélago está a 545Km do Recife/PE e a 375Km de Natal/RN e é formado por ilhas, ilhotas e rochedos, sendo que a maior ilha, com 17Km de área, é a única ocupada em 30% do seu território. Nesse espaço diminuto estão situados a área histórica, os núcleos habitacionais, os serviços minstalados na ilha e o sistema viário, formado pela BR 363 (que hoje se chama "BR 363 Miguel Arraes de Alencar") e por estradas secundárias, algumas bastante antigas, que dão acesso a todos os locais, inclusive às praias.
É nesse cenário tão diferenciado que moram aproximadamente 3.000 pessoas, dos quais cerca de 900 utilizam os serviços educacionais, frequentando a Escola Bem-me-Quer, de Educação Infantil, e a Escola Arquipélago, de Ensino Fundamental e Médio. Um outro grupo, de adultos, desenvolve estudos superiores, buscando graduação pela modalidade de Ensino à Distância, em convênios com instituições diversas, tendo ocorrido a conclusão da 1ª turma de Pedagogia em janeiro de 2010. Logo, mais de um terço da população noronhense é parte integrante da única rede de ensino disponível no Arquipélago: a rede Pública Estadual e/ou conveniada (apenas par estudos universitários).
A primeira evidência de um estabelecimento voltado exclusivamente para o ensino se deu em 1841, com a Escola Noturna, identificada numa aquarela do pintor Spetz, denominada "Praça de commando do presídio de Fernando de Noronha", situada no espaço hoje ocupado pela Quadra Esportiva da Vila dos Remedios. E, conforme o "registro de matrícula" da Escola Pública Mista do Presídio de Fernando de Noronha é possível que fosse essa mesma a escola em atividade constante até 1916, visitada neste ano pelo governador de Pernambuco, Manoel Borba que, considerando a precariedade dela, enviaria equipamentos, livros e mobiliário para melhorar o seu funcionamento.
Já no século XX uma outra edificação seria construída para ser escola, no local onde hoje funciona o Banco Real, que recebeu o nome daquele governador que investira na Educação insular: Grupo Escolar Manoel Borba. Em 1953 o Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos - INEP, ergueria mais um prédio para esse fim, onde hoje se encontra o Bosque de Flamboyants, instalando aí o Grupo Escolar Major Costa, inaugurado em 1957, oferecendo inicialmente apenas o Curso Primário e, mais tarde, o Ginário, fundado em 29 de fevereiro de 1964, pela Campanha Nacional de Educandários Gratuitos. Essa bela construção seria, lamentavelmente, demolida na década de 1980. Também em 1964 a SUDENE começaria a erguer a escola atual, no bairro da Floresta Velha, inaugurada em março de 1972, para onde seriam transferidos os Cursos Primário e o Ginasial, sendo a escola chamada inicialmente de Unidade Integrada de Ensino - UIE e, mais tarde, de Escola Arquipélago. Convênos e dotações orçamentárias geraram tentativas de implantação de modalidades de ensino, sobretudo em nível Profissional e Médio, sem que se desse uma solução definitiva, pela dificuldade grande de pessoal habilitado para o magistério. A Educação era mantida pelo MEC, através do Depto de Educação e Cultura do então Território Federal conduzido por militares, absorvendo, inclusive, crianças de 3 a 6 anos, nos Jardins da Infância.
Por estar localizada, geograficamente, no meio do Oceano Atlântico, muito tempo se perdeu até que se encontrassem caminhos para estruturar a Educação e, ainda assim, de forma improvisada, sem a facilidade da mão-de-obra especializada, existente no continente. E o problema era antigo... Desde a época do presídio, cabia aos padres-capelães e a familiares de presos e, depois, de militares, o trabalho de ministrar aulas. Até leigos da comunidade eram convocados e, uma vez alfabetizados, transformavam-se em "professores", sobretudo das chamadas "primeiras letras".
Em 1974, através de convênio firmado com a Universidade Católica de Pernambuco e o apoio da Secretaria Estadual de Educação, implantou-se o Curso de Magistério em Regime de Suplência Profissionalizante, que capacitou em serviço todos os que atuavam na escola tendo apenas o Ginásio como limite de estudos, formando 17 professores, que continuaram a trabalhar na escola, agora apoiados nos estudos feitos em módulos, nos períodos de recesso escolar.
Na década de 1980, foram firmados outros convênios, com diversos estabelecimentos de ensino de Pernambuco e R.G. do Norie, para propiciar estudos de 2º grau fora da ilha, nas modalidades de alunos-internos e alunos-externos. Foram conveniados: Colégio Diocesano de Garanhuns/PE; Colégio Santa Dorotéa de Pesqueira/PE; Colégio Sta. Águeda, de Ceará-Mirim/RN; Colégio de São Bento, de Olinda/PE; Colégio Maria Tereza, do Recife/PE; Escola Técnica de Natal/RN; CEPREVE e Colégio Elo do Recife/PE.
De 1984 a 1988, a UIE foi apoiada e seu Corpo Docente capacitado pela UFPE, através do "Projeto Esmeralda - de apoio educacional ao Território Federal de Fernando de Noronha", melhorando o rendimento escolar com capacitações permanentes e a elaboração de uma Proposta Curricular a dequada à realidade da Ilha.
Em agosto de 1985 implantou-se o Ensino Supletivo de 2º Grau, que funcionaria no horário noturno nas dependências da UIE, sendo os seus professores - na sua maioria - recrutados entre os militares com curso superior. Esse projeto experimental foi chamado de Centro de Estudos Supletivos de Fernando de Noronha - CES/FN. As dificuldades eram muitas e as deficiências facilmente percebidas pelos envolvidos com a Educação noronhense de então...
Em 1988 o Arquipélago foi reanexado a Pernambuco e a escola passou a ser administrada pela Secretaria de Educação do Estado, situação que perdura até os nossos dias. E só então ocorreu a regularização do envio de professores habilitados nas diversas Licenciaturas, garantia de um Corpo Docente capaz de dar ao ensino insular a excelência merecida. De lá para cá, muitos melhoramentos e inúmeras inovações foram sendo acrescentadas à escola, desde a estrutura física à atualização pedagógica, atendendo às necessidades que se apresentam, inclusive com investimentos em Tecnologia e, a partir de 2010, vivendo a experiência de Regime Integral de Ensino.
Vale constatar-se que, apesar de todas os impecilhos que precisaram ser enfrentados, a Educação em Fernando de Noronha segue o seu caminho em busca da qualidade necessária, cumprindo o seu papel de preparar as gerações para o futuro, como uma esperança concretizada!
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Foto 01 - Grupo Escolar Manoel Borba
Foto 02 - Grupo Escolar Major Costa
Foto 03 - Escola Arquipélago