
Há muito tempo, em Fernando de Noronha, havia uma cacimba de água extraordinária, considerada "a melhor água da ilha", que chegou a ser reservada somente aos doentes, com castigos estabelecidos para aqueles que ousassem usá-la estando sãos. Chamada de CACIMBA DO PADRE, acabou por denominar a praia nas suas imediações, antes chamada "Praia da Quixaba", por ficar na parte baixa da Vila com esse nome, erguida no alto. E, destampada e abandonada, viria a ver sua água estragar-se, sendo hoje imprópria para o consumo.
Mas, por muito tempo, também, poucos tiveram a curiosidade de identificar quem seria esse "padre", imortalizado numa praia hoje famosíssima, pela beleza e por abrigar - a cada ano, os campeonatos internacionais de "surf".
Alguns historiadores, debruçados no passado noronhense (infelizmente não foram muitos mas, os que o fizeram, deixaram um precioso legado), falaram dessa cacimba e desse padre, como Olavo Dantas, Mário Melo e Beatriz Imbiriba. E quem chegou mais perto da correta identificação do "padre", na sua "imortalidade insular", foi mesmo o grande folclorista e historiador Luis da Câmara Cascudo. Foi ele que, na coletânea "Pesquisas e Lembranças do R.G.do Norte", publicada pelo Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte, incluiu, no volume IV (de 1989), os dados mais precisos sobre o Padre FRANCISCO ADELINO DE BRITO DANTAS, nascido em Campo Grande, no R. G. do Norte, em 1825, imortalizado em sua terra por ter sido o fundador da povoação de Conceição do Panema, mais tarde transmudada em Vila de Upanema, com capela, correio e núcleo de população densa e também eternizado em Fernando de Noronha, onde foi viver por um tempo, como capelão da Igreja de N.Sª dos Remédios e onde descobriria um veio de água doce, de muito bom sabor, escolhendo então a região para morar, tendo todas as benércias de um lugar tranqulo, uma capela próxima para orações diárias (a "Capela de Conceição da Quixaba", restaurada por ele próprio, com ajuda da mão-de-obra presidiária) e a praia bem próxima.
Padre Francisco Adelino era filho do tenente Félix José Dantas, casado com uma sobrinha, Francisca Xavier de Lira, uma família tradicional nos municípios ao redor de Campo Grande, onde vivia. Era a pessoa mais conhecida da região, pela sua força descomunal, pelas suas habilidades na montaria, pela sabedoria como professor de Latim e Francês. Ordenou-se padre em 23 de maio de 1851. Tinha fixação pela construção de capelas e casas, sendo dele a segunda restauração da Capela da Conceição da Quixaba, logo que chegou a Fernando de Noronha.
Antes disso, em 1870, viajou para o Recife, vindo ensinar na Diocese de Olinda. Verificando a dificuldade de então para se enviar padres para o Arquipélago (na época, era por "sorteio" que se indicavam os padres e essa indicação era considerada uma penitência, um castigo...), solicitou sua indicação ao Bispo Dom Frei Maria Vital de Oliveira... E mudou-se para a ilha, onde ergueu "uma grande casa de taipa", em meio aos bosques arborizados", como sua morada provisória.
Sentindo a dificuldade que teria com a água (raríssima, sempre e somente encontrada nas Cacimbas de Atalaia e da Biboca e na Fonte do Mulungu)), tanto procurou que localizou a fonte de água deliciosa. E ali construiu a "Cacimba do Padre", com 14 metros, cavados pelos presos a seu serviço, ele próprio ajudando, de pá na mão e chapelão na cabeça. Em princípio de 1888 a cacimba ficou pronta. Não foi ele que a "batizou"... Foram os moradores e presidiários que a eternizaram assim, numa "consagração expontânea" e retribuição pelo que fizera.
Anos mais tarde, gravemente doente, o Padre Francisco Adelino pediu dispensa da capelania noronhense e voltou para o Recife, para despedir-se dos amigos e partir para sua terra, Campo Grande, agora re-batizada como Vila do Triunfo onde morreu, em 18 de agosto de 1893.
Um homem extraordinário, que viveu intensamente e foi eternamente ligado a duas das ações simbólicas que desenvolveu: fundou uma povoação e descobriu uma fonte que viria a re-batizar uma região insular. E, mesmo assim, nenhum desses dois feito o tornaram merecedor de nenhuma homenagem, através dos tempos, nem na Vila de Upanema, nem em Fernando de Noronha. Pena!